Holanda

Em Julho de 1936 dizia o jornalista e escritor Ortega Y Gasset,no jornal "La Nacion",de Buenos Aires :

"Os outros povos do planeta consideram a bicicleta um aparelho destinado ao jogo e ao desporto. Permite uma velocidade extraodinária com meios simples, exige algum esforço e, ao mesmo tempo, o seu uso implica um certo risco. Todas estas características confinam o velocipede ao âmbito das actividades desportivas e, entre elas, ás que requerem juventude. Apesar disso, verificamos que por todo o lado aumenta o seu uso em serviços meramente úteis. O Operário que vive em distantes subúrbios vai para o trabalho e regressa dele de bicicleta. O destribuidor de certo tipo de mercadorias e o estafeta também recorrem a ela"... ..."só a ela se recorre quando não há outro remédio ou quando a humildade dos meios económicos o impôe como uma triste necessidade. É por isso que não estranhamos: O operário mal vestido que pedala para ir para casa proclama tacitamente que preferia outro meio de transportee que usa esse precisamente não por ser o desejável mas por uma triste imposição...Mas na Holanda toda a gente anda de bicicleta, qualquer que seja a sua idade, sexo, volume, posse, e agita as pernas sobre os pedais, ia a dizer que cinicamente, isto é, como se fosse a coisa mais natural do mundo,  como se fosse o que é preciso fazer. Pois bem, é isso que errita o viajante, que causa estranheza e incompreensão: Considera-se natural e perfeito o que lhe parece inadquado e erróneo...

La Nacion, Buenos Aires. 1936

Na Holanda não existem desculpas para não se andar de bicicleta. Tudo está preparado e andar de bicicleta é tão natural como andar a pé. A bicicleta parece que faz parte do corpo da maioria dos holandeses, é um completamento que lhes permite chegar mais depressa ao seu destino. De forma prática e eficiente. A bicicleta é isso mesmo: Uma parte do corpo de cada um. Do mesmo modo que usamos as mãos para pegar em algo o holandês usa a bicicleta para se mover. Como diz ainda Ortega y Gasset nesta sua deliciosa crónica os "Holandeses são o povo eleito pelo Deus das Bicicletas".

Todos e tudo se transporta em cima de uma bicicleta de forma simples  e descontraída, as crianças não têm medo, os pais também não pois consideram esta a forma mais segura de deslocação. Na Holanda em muitas ruas de sentido único para o trafego automóvel é permitida a circulação em sentido contrário por bicicletas. É também permitida a passagem de vermelhos para virar á direita. Tudo se descomplica.

As bicicletas são aos milhares e há que criar condições para que o seu parqueamento seja feito de forma eficiente. É impressionante a quantidade de bicicletas que estacionadas junto aos pontos mais frequentados das cidades.

Umas horas em Amesterdão

Quando se chega a Amesterdão a sensação é de espanto. Confesso que fiquei espantado pois tudo me parecia uma anarquia sem sentido. Bicicletas por todos o lado. Sabia por todas as imagens que já tinha visto que era uma cidade cheia de bicicletas mas nunca imaginei que fossem tantas. Os cidadãos de Amesterdão queixam-se que os turistas não sabem andar de bicicleta na sua cidade. E são capazes de ter razão. Passadas uma horas comecei a perceber que tudo fazia sentido e qua aquela aparente anarquia não passava disso mesmo. Eles estão habituados a circular daquela forma e como já disse atrás a bicicleta não é mais para os Holandeses qua a extensão do próprio corpo e não é mais que um peão com e rodas.

40 segundos numa esquina de Amesterdão

Verona-Itàlia

Por motivos profissionais desloco-me com alguma regularidade à cidade de Verona no norte de Itália . Não deixo sempre de me espantar com a maneira como os seus habitantes utilizam a bicicleta. Não sendo como Amesterdão, ou outra das grandes capitais do uso da bicicleta, em Verona as bicicletas são mesmo muitas e é fácil constatar que não é uma moda recente mas uma tradição há muito enraizada na cidade.  A maneira absolutamente simples e descontraída como a bicicleta e usada é admirável. Dá até a ideia que a bicicleta é utilizada de forma desregulada e anárquica mas depois percebe-se que a cultura da bicicleta está tão desenvolvida que a circulação das mesmas e a convivência com os restantes ocupantes do espaço público é tão natural como respirar. A sensação de que a bicicleta circula de forma anárquica acaba por desaparecer rapidamente e percebemos que realmente a bicicleta é mesmo uma coisa muito simples e, apenas e só, um complemento quase natural do nosso corpo. Um complemento que nos permite deslocar mais rapidamente de um lado para o outro e que ao mesmo tempo nos transmite uma enorme sensação de liberdade. O ciclista de Verona anda por todo o lado, anda por ciclovias feitas de forma natural e eficiente, anda nas ruas e até em cima dos passeios quando se sente inseguro. Passa alguns vermelhos em segurança, circula em contra mão e passa traços contínuos. Tudo isto é feito com grande descontração e repito com segurança e cuidado e nunca vi em vez nenhuma qualquer reclamação por partede automobilistas. Talvez porque quase todos os automobilistas tem em casa uma bicicleta e também a utilizam com frequência ou alguém muito próximo que a utiliza com regularidade e compreendem que o ciclista está muitíssimo mais próximo do peão que do automóvel . Aqui não existem complexos e é fácil ver gente de todas as idades e feitios com a sua bicicleta, que obviamente está de acordo com a sua personalidade. Nesta última viagem alguém teve para comigo a conversa do costume: "é tão giro ver as pessoas de bicicleta mas em Lisboa não dá". Desta vez nem respondi que sim, que dá, assim nós queiramos e mudemos a nossa mentalidade. As colinas não são dificuldade nenhuma, ou pelo menos nada de especial, o problema é mesmo a mudança de mentalidade. Da mentalidade de quem decide as políticas públicas, da mentalidade de quem educa, da mentalidade de quem vive o espaço público que não é de ninguém e a todos pertence. A bicicleta não é nenhum elemento estranho a uma cidade. É antes pelo contrário uma mais valia e um meio de transporte altamente eficaz e saudável. Que deixem de uma vez por todas de tentar impor regras demasiado rígidas à sua utilização , como se fosse comparável a um veículo motorizado, que se criem condições para a sua utilização segura, que seja vista como um elementos desenvolvimento e modernidade. Que nas escolas se comece a ensinar as suas mais valias e o seu interesse económico e ecológico e a sua utilização pratica. Que se crie de raiz uma verdadeira cultura da bicicleta é aí as coisas mudam de certeza, porque a ninguém custa mudar para melhor, no caso para muito melhor. Como já aqui foi dito "criem-se as condições e as coisas acontecem".Todos seremos de certeza mais felizes, até o automobilista rezingão, zangado e impaciente pois circulará melhor, dentro da sua amada e idolatrada lata. PS. Ao dar este exemplo de Verona não estou a incentivar ninguem a passar vermelhos etc. Na estrada devemos ter um comportamento responsável e muita atenção ao que se passa à nossa volta, fazer uma condução preventiva e cuidada. Devemos sobretudo ter muito respeito pelos outros, sobretudo pelos peões mas também por todos os outros ocupantes do espaço público. E,repito, muita atenção na estrada porque por cá temos muito inconsciente com um volante nas mãos, para quem uma bicicleta na via só atrapalha.