Lisboa-Fonte da Telha

Saí de casa sem saber muito bem para onde ia. Sabia que me apetecia ir a qualquer lado de bicicleta. O dia estava bonito apesar do vento e de algumas nuvens que podiam trazer  chuva.  Desci a Belém e reparei que um barco estava de saída rumo à Trafaria. Porque não? Há tanto tempo que não vou para aqueles lados. O mar chamava-me, percebi eu. Por vezes tenho saudades do mar, do seu cheiro. Faltavam dois minutos para o barco desamarrar as cordas , atabalhoadamente e á pressa comprei bilhete e entrei. Que bom que foi.

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Apanha-se um barco, muda-se  um pouco a rotina e parece que tudo se transforma. Sair neste barco em direção á outra margem foi como se me libertasse das amarras de Lisboa. Há muito que não fazia este trajeto, que tanta importância teve na minha vida. É engraçado que por vezes nos esquecemos das coisas que de alguma forma foram importantes. A viagem para a Trafaria sempre me cheirou a praia, sempre me soube a Liberdade, sim no barco já se sentiam os perfumes da praia quando ainda adolescente o apanhava para ir com os amigos para a Cova do Vapor. Era a nossa praia,  pouca gente, na maioria conhecida e com uma extensão que na altura parecia enorme.  O que nos divertíamos, o que sonhávamos , o que partilhávamos.  O entardecer nas dunas, os amigos.

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Chegado á Trafaria vieram muitas memorias á lembrança, a  maioria tinham que ver com praia e divertimento mas também com algum terror como foi o do dia em que fiz aquela viagem, não para ir para a praia mas para o Quartel naquele que seria o meu primeiro dia de serviço militar obrigatorio no então quartel daquela vila.  Calhou em Maio e no barco que me transportou naquele dia iam também muitos veraneantes, a inveja que tive deles , que iam para o paraíso enquanto eu ia para o inferno.

Mas afinal o inferno não foi assim tão mau e nesse período conheci pessoas que ainda hoje recordo com ternura, conheci o Pedro que na altura namorava a Anabela e de quem me tornei grande amigo, uma amizade que ainda hoje perdura. O Pedro que namorando com a Anabela que era fotografa teve grande importância na escolha do meu futuro profissional. O J. que vinha de tão longe, de S. J. Da Pesqueira e com quem tive o meu primeiro contacto com alguém que chegava do Portugal profundo, que até á data praticamente desconhecia habituado que estava apenas á vida na cidade. E tantos outros com quem partilhei tristezas, também muitas alegrias e excelente camaradagem.

Fiquei com pena pelo facto do quartel se encontrar encerrado e bastante decadente mas as coisas são mesmo assim e tudo tem o seu tempo.

Foi quando cheguei á Costa de Caparica que percebi as saudades que tinha do Mar,  este faz parte de mim, cresci com ele, com este Mar e tenho estado longe dele.  Faz-me falta este Mar. Está aqui tão perto e por vezes esqueço-me de o visitar.

Ainda com o seu cheiro e com a sua humidade na pele deixo por momentos o mar e parto em direção á Fonte da Telha, outra praia que tanto tem a ver com um período muito feliz da minha vida e com a enorme transformação que esta levou. Não será uma praia bonita pensará quem me lê mas tal como a Cova do Vapor pareceu-me durante muito tempo a mais bonita praia do Mundo. E é.

No caminho passei pela maravilhosa “Mata do Medos”, que medo não mete e lembrei-me do meu amigo Zito e do amor que tem por aquelas árvores retorcidas e verdadeiramente belas.  São lindas as árvores da Mata dos Medos. Se não acreditam perguntem ao Zito.

Da Fonte da Telha regresso à Costa de Caparica onde volto a parar para apreciar a força do Mar e a sua beleza, por vezes tão selvagem mas também tão inspiradora e generosa.

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Ao final da tarde regresso a Lisboa  tendo o privilégio de ser brindado com um magnifico entardecer. A natureza gosta de nós e oferece-nos, de mão beijada, estas maravilhas sem exigir nada em troca. Por vezes a pressa de ter algo é tanta que nem reparamos que as melhores coisas de vida são grátis e estão á nossa volta.

Um regresso que faço com as energias renovadas e com muito mais felicidade no coração.

Trafaria

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A Trafaria é uma vila Piscatória com muito para contar e que vale bem a pena visitar. É um lugar encantado onde se come muito bem. Tem também passeios de bicicleta á disposição com quem conhece as redondezas. Podem confirmar aqui

Fonte da Telha

Se ficaram com curiosidade em relação ás belas árvores da Mata dos Medos podem confirmar aqui no blogue do meu amigo Zito Colaço. Se tiverem sorte, na Fonte da Telha, podem também assistir á chegada dos pescadores.