Belmonte-Sortelha-Belmonte.

O dia estava muito frio e húmido, a neblina nunca levantou e a visibilidade era reduzida se bem que não representava perigo.  A ideia era fazer um pequeno passeio entre Belmonte e Sortelha ligando assim estas duas localidades Históricas.

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Belmonte  é uma Vila elegante. Fica, tal como o nome indica, no “Cimo de um monte” e é de facto bela. Casas em pedra, um vistoso Castelo e museus. A influência Judaica é facilmente perceptível e vale a pena visitar o museu e percorrer as ruas procurando e descobrindo as marcas desta cultura na Vila.

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Terra de Pedro Álvares Cabral, situada em plena Cova da Beira e com ampla vista sobre a encosta oriental da Serra da Estrela, a vila de Belmonte justifica plenamente as características que lhe terão dado o nome. Diz a tradição que o nome Belmonte provém do lugar onde a Vila se ergue (monte belo ou belo monte). Porém, há quem lhe atribua a origem de “belli monte” – monte de guerra. Terra solarenga, de boas gentes, paisagens sem fim e uma história de séculos.
— Site: Aldeias Históricas de Portugal

Sair de Belmonte em direção a Sortelha não é a tarefa mais fácil, queria  apanhar a estrada mais tranquila e as indicações são muito más. Estas duas localidades fazem parte das Aldeias Históricas de Portugal que tem representação física, uma loja bonita, em Belmonte mas que a um sábado de manhã está fechada, o que é uma pena. Existe muito pouca informação e só com o GPS se consegue delinear uma rota. Parto em direção à gare de Belmonte e depois a Inguias por uma estrada secundaria com muito pouco trafego automóvel fazendo uma viagem muito tranquila. Infelizmente as placas que devem indicar que vou na rota das Aldeias Históricas não se vêm, embora seja dito que houve uma remarcação há pouco tempo. È mesmo uma pena que assim seja.

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Esta região é lindíssima e uma maravilha para calcorrear de bicicleta pois tem muito pouco transito, a cada curva surge uma surpresa, algo que nos apaixona. É o caso de uma antigo e enigmático hotel em ruinas que nos espreita antes de chegar a Sortelha e que com a sua beleza decadente nos seduz a visitar.

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 Vale a pena a subida de acesso e a sensação que se entra em terreno de abandono mas algo mágico, que se recua no tempo e que se ouvem ainda as vozes excitadas dos hóspedes ou do empregado da recepção abandonada a dizer “Bem- vindos”, do cheiro das malas de couro ou das águas termais que afinal não o eram.

Conta alguém que este sumptuoso hotel funcionou durante anos pensando-se que as suas águas eram virtuosas para saúde de quem as usava e bebia, mas ao que parece não era verdade e tinham precisamente o efeito contrario ditando assim o fatídico fim deste empreendimento construido em granito.

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Entra, diz-me ele, e eu entro. É difícil resistir a tal apelo e sedução.  O espaço embora decadente está limpo, irrepreensivelmente limpo o que é espantoso. Ruinas, obras inacabadas, como se alguém saísse á pressa.

O seu nome era Hotel “Serra da Pena”, ou Termas “Radium”, como era conhecido. Tinha cerca de 90 quartos que estavam quase sempre ocupados por alguém que vinha à  procura de uma cura milagrosa para um mal que afligia o corpo e a alma. Mas afinal as águas radioativas eram cancerígenas e quando se começou a perceber isso o hotel ficou amaldiçoado. Terá sido inaugurado no início da década dos anos vinte do século passado e deixou definitivamente de funcionar em 1954-55. Podem ver aqui uma reportagem bastante completa sobre o local.

Sigo viagem em direção a Sortelha regressando á estrada de alcatrão.  Sobe-se mas não demasiado, a subida é feita de forma muito suave e sem pressas. A neblina aumenta e o dia torna-se um pouco mais escuro. Ainda mais misterioso.

Como que num mítico conto Celta entro em Sortelha, da penumbra é fácil imaginar que alguém sai, um “Ser Antigo”, e pergunta ao que venho. Venho visitar a aldeia diria eu, procuro a sua beleza e singularidade e também algo quente que já são quase 4 horas e ainda não almocei. Gosto tanto de andar de bicicleta  e de percorrer estes caminhos que até me esqueço de comer, e não posso deixar de sorrir perante tal pensamento. Venho ver esta  terra que dizem ser bonita e ver o que cá se passa. E entrei, falando comigo próprio como se falasse com o Celta, apreciando cada pedra, cada escultura... cada casa. Sortelha não engana e leva-nos por estreitas ruas, por empedrados cheios de história, de vida mas também de dificuldades passadas.  De sofrimento pois viver nestas terras frias não era fácil para o cidadão comum. Tal como todo o interior beirão está com poucos habitantes,  muito despovoada,  incólume à espera que as gentes se atrevam a voltar. Porque estas terras são ricas, ricas em tradição e bem receber, ricas em beleza e património, em sossego e bem-estar.  Os tempos eram muito difíceis mas hoje estão bem mais fáceis e aqui a qualidade de vida pode ser bem melhor que nas grandes cidades. Pode e é,  assim as pessoas e os poderes o entendam e nisso apostem. Sortelha como que espera por mim como eu procurava por ela. No meio da penumbra aprece a torre do Relógio e subo até lá. Desço depois ao Centro da aldeia e aí encontro, n dois Homens e uma Burra que parecem vir de lado nenhum pois há muito tempo que não via ninguém, eles vestidos de Reis Magos ela toda bonita e vaidosa. Vamos para o largo do Pelourinho, dizem eles, junto á porta do Castelo. Venha connosco, temos lá umas atividades, vai ver que vai gostar. E eu , claro, fui. Segui atrás da Burrinha e dos Reis Magos até ao Castelo e não me arrependi.

Se levava fome ela passou , se levava sede perdi-a por momentos. No largo do Pelourinho estava uma tenda montada, à antiga, estavam também os Reis Magos, estavam pessoas a fazer pão que saía quente e cheiroso, chouriças estalavam na brasa e as filhoses fritavam em óleo quente em fogueiras bem planeadas . Tão quente e acolhedor estava aquele largo que me deixei ficar, apreciando e usufruindo, conversande, alimentando a alma. Sim porque a alma também necessita de alimento e ele estava todo ali. Na fogueira, na simpatia das pessoas, no calor que emanavam. Ali me deixei estar e quando dei por mim estava outra vez com fome e com sede e ali a saciei, com aquelas iguarias boas e simples, acabadas de fazer. Foi como se tivesse recuado no tempo, recuado ao tempo dos Celtas que imaginei á entrada ou ao tempo do inicio dos séculos. Tudo fazia sentido: A neblina, a humidade, as fogueiras, as pessoas, o ambiente, as pedras húmidas ou a silhueta do Castelo.  Existem locais que nos chamam e esperam por nós e naquele sábado frio e cinzento eu comecei a perceber não tinha decidido ir ali por acaso. No meu intimo sabia que ira encontar algo de especial. E encontrei. Sortelha é um lugar especial.

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No Largo do Pelourinho

No largo do Pelourinho havia vida, havia tradição e modernidade. Havia convívio e respirava-se com  alma e coração e não apenas com os pulmões.  Haviam ruídos de época, tranquilos, havia Paz. Aquela paz apenas possível em locais míticos, em locais que se mantêm fora do turbilhão e da correria que são as nossas vidas citadinas.

No Largo do Pelourinho o tempo era de alegria, de partilha.

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E de repente lembrei-me da fome que tinha. Já tinha alimentado aalma chegava agora a vez do corpo. Eram quase 5 horas e não comia desde de manhã. E comi: pão acabado de fazer, queijo fresco acabado de sair de mãos sabedoras, chouriço e morcela acabadas de assar.  E fiquei refeito, pronto para voltar que já se fazia tarde e os dias são pequenos. Não sem antes me despedir de tão calorosa e acolhedora gente, gente nos enternece e não para de surpreender por tudo o que fazem e nos proporcionam. E Feliz voltei a Belmonte.

Os gatos de Sortelha.

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Quem visita Sortelha não fica indiferente aos seus gatos, são bastantes a aparecem em todo o lado, seja nas janelas, seja pelas ruas. São todos bonitos e gordinhos, bem tratados. Dão um toque especial a um lufar já de si místico.

E gostam de bicicletas, ou pelo menos são curiosos em relação a elas, como o são a tudo o resto.

A viagem por estrada de Belmonte a Sortelha em bicicleta é relativamente  fácil , trajeto plano ou com pouca inclinação exceto na aproximação ás localidades que são num alto. Infelizmente a informação nas estrada é pouca e aconselho o caminho pela localidade de Enguias e não por Caria, embora Caria seja também um local a visitar. Mais informação no site das Aldeias Históricas de Portugal .