Na Marginal

A Marginal

 

Existe uma via  com uma paisagem lindíssima, praticamente plana, que liga Lisboa a Cascais. Mas não é para todos.

 

Há tempos cheguei a Algés, apetecia-me rolar com a minha bicicleta, e em vez de virar para Lisboa decidi ir pela Marginal . Sempre tive algum receio de andar pela marginal que liga Lisboa a Cascais. Muito trafego, muito automobilista impaciente, muitas opiniões nas redes sociais, quase sempre muito agressivas, enfim nada que atraia.

 

Mas fui e é realmente um prazer viajar de bicicleta com aquelas vistas surpreendentemente belas num dia de céu azul e mar da mesma cor.  Um deleite para a  vista.

 

A partir dessa data comecei a ir mais vezes, ao fim de semana, a um ritmo rápido, quase de treino e tenho encarado isso quase como uma “Massa critica pessoal”  de marcação de posição , de afirmação e chamada de atenção, de grito de alerta para todos os que pensam que aquela via lhes pertence por direito adquirido e oferecido pelo Santo Deus do Automóvel.

 

São muitos , mas mesmo muitos, os ciclistas que circulam, sobretudo ao fim de semana, em treino ou lazer na Av. Marginal. Segregados e mal-amados pela ditadura dominante  aí vão eles.  Rápidos e lestos, dão cor  e alegria a uma via frequentada maioritariamente por gente cinzenta e enlatada.

Depois existem os muitos que se deslocam em bicicleta por outras razões que não o treino ou a deslocação rápida, esses é vê-los a medo sobre os passeios pois para aí são enxotados. A marginal é dos automóveis e só a eles pertence.

 

“Os ciclistas empatam”, dizem frequentemente, “temos pressa de chegar e atrasam-nos”, “por sua causa chegamos atrasados ao trabalho” ,  “ a marginal não comporta gente desta” basta ver comentários em páginas das redes sociais ou olhar para a cara de automobilistas incomodados para  perceber que os ciclistas não são de todo bem vindos a este espaço.

 

Este fim de semana por motivos profissionais tive de me deslocar de Lisboa ao Estoril e queria ir de bicicleta. Ia em trabalho portanto ia de maneira diferente , de bicicleta de cidade e com material de trabalho.  O dia estava lindo e achei que ninguém tinha o direito de me tirar esse praze e essa possibilidade

 

Até Caxias fui pela ciclovia, que entre Algés e esta localidade estava apinhada de gente que a partilhava. A pé, de bicicleta, de patins, todos aproveitavam como podiam o sol e a luz que estava. O espaço era exíguo mas todos o partilhavam.

 

Chegado a Caxias sou obrigado a entrar na Marginal e seguir pela via partilhada com automóveis.  Ali vai o mal amado, que obriga os automobilistas a andar mais devagar. Razias despropositadas, até de motos, fumo de escape com fartura, acelerações intimidatórias, tudo isso sofre na marginal, mesmo ao fim de semana, quem ousa desafiar o venerado automóvel.

 

Começo então a olhar com mais atenção  para dentro dos carros, para quem apressadamente passa por mim mas que é obrigado a parar mais á frente numa fila ou semáforo de controle de velocidade e começo a perceber que 95% dos automobilistas que por ali andam estão em passeio, em puro lazer. Passeiam a família, passeiam o cão, passeiam sozinhos.  Dentro do seu automóvel passeiam na Marginal  e ainda se incomodam com quem vai de maneira diferente. Começo a perceber que das únicas pessoas que se está a deslocar em trabalho sou eu e que são os automóveis, que em muitos locais formam fila é que me incomodam  e me empatam.  Que fazem aquilo de que acusam quem anda de bicicleta. Frequentemente tenho de parar e levar com o fumo do pára-arranca. Frequentemente me impedem de andar.

 

Entretanto o passeio marítimo que liga Paço de Arcos e Oeiras esta apinhado de gente, lotado. Um espaço estreito para tantas pessoas ávidas de espaço, uma via larguíssima para tanto carro e tão pouca gente.

 

Dou comigo a pensar como é isto possível ainda?

 

Se ao fim de semana a Marginal serve sobretudo para passear porque é que temos de o fazer de automóvel? Porque não abrir a Marginal regularmente ao fim de semana a outros meios de mobilidade ?

 

Porque não são criadas na marginal condições de segurança para que a bicicleta possa ser usada diariamente como meio de transporte ? Tem todas as condições para isso e seria um verdadeiro sucesso de utilização de mobilidade suave.

 

Quem tem pressa e precisa de se deslocar mais rapidamente tem a alternativa da A5 e uma eficiente linha de comboio.

 

A Marginal fecha uma ou duas vezes por ano durante a manhã para dar lugar aos indesejáveis. E eles aproveitam e ficam felizes com tal esmola. Não estará na altura de reivindicar mais?  Muito mais?

Bicicletas obrigadas a circular no passeio. Porque a Marginal não é para todos.

Bicicletas obrigadas a circular no passeio. Porque a Marginal não é para todos.