A crónica do Pedro.

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A Crónica do Pedro

Gosto muito da escrita do Pedro e de andar de bicicleta com ele. Desafiei-o para escrever uma crónica para o blogue quinzenalmente. Aqui está a primeira. Estou orgulhoso e espero que gostem.

Caminhos para encontrar a verdadeira felicidade com a bicicleta

Um dia, ainda na minha adolescencia, fui pedalar com os meus amigos, como tantas outras vezes. Esse seria o último dia em que iriamos pedalar todos juntos. Não por ter acontecido algo trágico. Mas sim, por outra razão que suponho ser triste, à sua própria maneira. A bicicleta (e andarmos de bicicleta juntos) tinha deixado de ser relevante nas nossas vidas. Esta quebra com a aventura que era pedalar até sítios distantes, ou pelo menos na altura o pareciam, causou o desaparecimento de uma certa maneira de ver as coisas. O deixar de fazer coisas que eram ao mesmo tempo simples como aventureiras. O ir andar de bicicleta para andar de bicicleta. 

Ir passear de carro podia até ser mais cómodo. De aventura não tinha nada. Passámos a ser como tantos outros. A nossa infância tinha ficado para trás.

Eu continuei a andar de bicicleta, se bem que agora, na maior parte das vezes, pedalava sozinho. 

A minha adolescência foi cheia de btt. Posso agradecer à bicicleta de todo o terreno por me voltado a dar ao pedal. E, com o tempo, também deixei de perceber porque é que pedalava. Os anos passaram ,e , simplesmente, a bicicleta ficava mais tempo parada. Deixei de me sentir feliz em cima de uma bicicleta de btt e não sabia porquê. A bicicleta funcionava bem e tinha perícia suficiente para não fazer má figura nos trilhos. O problema era, portanto, meu. O que mudou? Uma crescente sensação de que o aspecto demasiadamente tecnológico à volta do qual o btt parecia girar tornava-se cada vez mais sufocante. As mais recentes "inovações" deixavam de fazer, para mim, muito sentido. O btt deixou de fazer sentido. Sem saber muito bem o que fazer disto tudo, comecei à procura. Do quê, não sabia bem. Mas sabia que gostava de andar de bicicleta e que era possível voltar a pedalar. E todos os dias. E sobretudo, recuperar a felicidade ao pedalar.

Que caminhos proponho então para encontrar a verdadeira felicidade?

I - Simplificar a bicicleta e a maneira como se anda de bicicleta

Pode paracer uma contradição dizer-vos para simplificar a bicicleta com a troca da actual bicicleta por uma outra diferente, mas se calhar não é. Vejamos: o actual sistema e sua maneira de pensar encara todos os recursos naturais e até mesmo o próprio homem como uma espécie de armazém, sempre pronto para ser utilizado a qualquer altura, da maneira mais optimizada, de forma a rentabilizar e sempre com o lucro rápido em mente. A obsolescencia programada é um dado adquirido em qualquer bem de consumo nos dias de hoje. Ora é o tamanho da roda que muda, ora é a necessidade absoluta de termos bicicletas cada vez mais sobredimensionadas para fazermos trilhos perfeitamente normais, ora é a necessidade de mudar as transmissões para algo ainda "melhor". Se hoje temos 10 velocidades, amanhã teremos (de ter) 12. Mas, na prática, para além de um certo patamar, muita coisa é desnecessária. E, a tecnologia, que deveria ser um meio para atingir um determinado fim, torna-se agora o maior inimigo: todo este enquadramento gigante, desde as suspensões, transmissões, quadros exóticos de carbonos, etc, afastam-nos da verdadeira experiência do pedalar. Em vez de estarmos concentrados na experiência do momento, estamos mais concentrados no funcionamento da peça A ou B. Até a paisagem se torna como um objecto, ali, para nos satisfazer com as suas "descidas técnicas" ou com "saltos". Características essas que são independentes do local onde pedalamos. No fundo, tanto faz pedalar em A ou B. O que interessa é pedalar, não pelo acto metafísico de o fazer, mas sim, como meio de atingir determinada meta para melhor quantificarmos e justificarmos determinada aquisição.

Como então simplificar a bicicleta? Fácil: escolher uma bicicleta mais ou menos tradicional, uma bicicleta arquétipo. Quando fechamos os olhos e imaginamos uma casa, não pensamos num apartamento T2 num qualquer subúrbio. Pensamos antes numa cada com jardim. Quando imaginamos uma bicicleta, não imaginamos uma bicicleta exótica de contra relógio feita toda em carbono tipo nave espacial. Pensamos sim, numa bicicleta bem mais clássica. Possivelmente com páralamas e portabagagens. 

Uma bicicleta mais simples deverá estar o mais desligada da "rede" na medida do possível, sem entrar em excessos luditas. Transmissão "normal", sem bizarrias de cassetes com dois dígitos, quadro com muito espaço para pneus largos, apoios para páralamas e portabagagens, travões a cabo, garfo rígido, coisas assim. Uma bicicleta mais simples resistirá melhor às constantes pressões dos "progressos" tecnológicos. Em teoria, a tua bicicleta deveria ser possível de ser construída a nível local, tal como ser possível reparar a mesma localmente, com ferramentas mais ou menos simples.

Como simplificar a maneira como se anda de bicicleta? Um primeiro passo deverá ser encarar o pedalar como algo que tanto pode ser desportivo mas sobretudo, não.  A grande maioria das pessoas encara pedalar como apenas um desporto, ou seja, algo que deve ser relegado a um ou dois dias por semana, para muitos. No fundo, estou aqui a falar da possibilidade de pedalar habitualmente, ou seja, a qualquer momento, poder simplesmente pegar na bicicleta e, juntamente com o facto da bicicleta ser mais simples, não parecer alguém que foi experimentar a bicicleta contra relógio do amigo vestido de calças de ganga. Pedalar por pedalar.

Falando de aspectos mais prácticos, evitar o uso de pedais de encaixe (que implicam o uso de calçado especial), ir pedalar com roupa feita de materiais naturais (algodão, lã, linho) e deixar o camebak em casa. Quando falo de roupa, refiro-me a roupa normal, camisas, calções clássicos, etc, que acho bem mais estéticos do que roupa justa coberta de publicidades.

II - Pedalar por pedalar

Como disse acima, pedalar por pedalar. Simples? Se calhar não.  Pedalar por pedalar implica um verdadeiro trabalho mental. Pedalar por pedalar, conscientemente, implica também um esforço, um esforço de não sucumbir às constantes distracções digitais já nossas conhecidas. Simplesmente, tratar o acto de pedalar como se de um acto de meditação se tratasse. Existir o/no momento.

III - Fazer mais coisas com a bicicleta.

Se deixarmos de usar a bicicleta apenas para fazer exercício ou para ir "fazer trilhos" ruidosamente ao domingo de manhã, podemos chegar à conclusão que a bicicleta é o veículo perfeito para aventuras. 

Podemos sair cedo, sem hora para voltar. Fazer um picnic pelo caminho. Tirar umas fotos. Fazer uma sesta à sombra de uma árvore. Voltar para casa de comboio, se não tiveres vontade de pedalar. 

Podemos também ir acampar com a bicicleta. Para aqueles que não têm tempo, sempre podem experimentar um S24O. 

E, sobretudo, tentar incluir a bicicleta no dia a dia, na medida do possível. Deixar o carro em casa. Deixar de ter carro. Juntar a bicicleta aos transportes públicos sempre que possível. Vencer a preguiça (muitas vezes mental) de fazer curtas e médias distâncias com a bicicleta. Vencer o medo do "suar" . Pedalar mais devagar, que também lá chegamos, e menos cansados e suados. Simplificar, não complicar. 

O verdadeiro caminho para a felicidade é a simplicidade. 

Pedro Manuel / Velocorvo

Isabel-Lisboa

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Ia na ciclovia do Tejo quando reparei na Isabel. Levava os braços abertos como quem abraça o mundo e o transforma em felicidade. Não resisti a meter-me com ela.

LC: tens essa bicicleta há quanto tempo?  Isabel: Um ano mais ou menos. Foi a melhor compra que eu fiz!! LC: Consegues definir numa frase o que é para ti andar de bicicleta em Lisboa? Isabel:  É genial !!! Normalmente venho super cansada do trabalho e limpa-me a cabeça. LC: Eu vinha atrás de ti e reparei que vinhas a abrir os braços ... Isabel: Sim, vinha. E a cantar.  Venho sempre muito contente...

"e as coisas acontecem"...Lisboa

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NATUREZA

Há uns anos tive uma das saídas mais cretinas que já me aconteceram em contexto profissional. Estava a seguir Gonçalo Ribeiro Telles para uma reportagem sobre as obras que viriam a resultar no Jardim Amália Rodrigues, no topo do Parque Eduardo VII, em Lisboa. A dado passo, o arquitecto diz: “tem de imaginar que aqui será o lago. Está a ver? Isto tudo água, com uma série de patos…” E eu digo: “Ah, patos. Que bela ideia. Vão pôr patos aqui.” O velho senhor fixa-me devagar: “Não. Não vamos pôr patos em lado nenhum. Vamos criar as condições – um lago – e os patos aparecem naturalmente. Olhe, muito provavelmente alguns virão do lago da Gulbenkian.”

Glup. Pois claro. Criam-se as condições e as coisas acontecem.

Nunca mais me esqueci deste diálogo. Não tanto por ter feito de tonta com um velho sábio, mas porque os patos, efectivamente, apareceram. Ao longo dos anos tenho testemunhado como são muitos e vivazes, como chegam e partem livremente. Apenas porque ali encontram condições apetecíveis, adequadas.

Quando em Lisboa se começaram as obras para os percursos pedestres e para as ciclovias não faltou a habitual vozearia contra o despesismo e o transtorno e a falta de lugares de estacionamento. Na minha família, os mais velhos foram particularmente críticos. Para quê? Quem é que vai andar de bicicleta ou correr na cidade das sete Colinas?! E eu sismava nos patos. Criam-se as condições e eles aparecem. Talvez, dizia para comigo, talvez o sedentário lisboeta se ponha finalmente a pedalar ou a fazer corridas ao fim da tarde.

Hoje, é vê-los. São tantos, são cada vez mais. Criam-se as condições e as coisas acontecem. A natureza tem tanto para nos ensinar.

Texto: Paula Moura Pinheiro

Com a Carolina em Verona.

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Fui com a Carolina Loureiro em trabalho a Verona a convite da Calzedonia e lá fizemos esta fotografia para a revista Lux. Em Verona a bicicleta é muito utilizada em deslocações por pessoas de todas as idades. "Adoro andar de bicicleta. Quando era mais nova deslocava-me pela zona onde nasci sempre de bicicleta. Iamos para a praia de bicicleta, ia comprar pão de bicicleta ou mesmo só andar e fazer alguns passeios com os meus amigos. Tenho pena que em Lisboa não seja tão comum como em algumas cidades europeias, por exemplo em Amesterdão, ou Berlin. Adorei ver pessoas que optam andar mais de bicicleta do que de carro. E acho que assim devem ser menos stressadas hehe :) "

O meu amigo José Manuel Caetano.

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O José Manuel Caetano não deixa ninguém indiferente. Há quem o ame e quem lhe tenha grande alergia, há quem o aplauda e há quem o critique de forma veemente. Não é uma pessoa de meios termos mas de convicções. Os grande homens são assim. Já o conheço há muitos anos e por incrível que pareça nem sequer o conheci por causa das bicicletas. Durante todos estes anos temos mantido contacto e as bicicletas acabaram por nos aproximar um pouco mais. Muitas opiniões diferentes se podem ter dele mas o que é um facto é que a sua importância para o desenvolvimento do uso da bicicleta em Portugal é fundamental. Nunca se poderá falar deste tema sem falar de José Manuel Caetano. Esta fotografia foi feita para a capa do seu livro “Portugal a pedalar” e foi feita com muito prazer. Hoje faz anos, alguns, e é para mim uma grande honra ser seu amigo. Parabéns Caetano. (Post original-25-11-1017)

A Marta e o Álvaro-Lisboa

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Conheci a Marta por trabalharmos para a mesma empresa. Cedo descobrimos que tínhamos em comum a paixão pelas bicicletas. A Marta tem um novo projecto, muito interessante e bonito, a Lux Gourmet. Atravéz dela conheci o Álvaro também ele um apaixonado por bicicletas e outras coisas bonitas. No seu belissimo site “O Editorial” escreve sobre design e outras coisas muito interessantes.

 "Para mim andar de bicicleta continua a ser sinónimo de liberdade, de sentir os locais por onde passamos de uma forma mais autêntica, fazer das nossas deslocações uma experiência que nos aguça os sentidos. Desde pequeno, em que ia de bicicleta com o meu avô até à praia de São Martinho do Porto. Até agora a bicicleta tem desempenhado um papel essencial na minha vida até porque também foi a desculpa para ter conhecido a Marta"

Álvaro

Belém-Lisboa

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Há dias numa página de facebook alguém questionava a utilidade destas calhas colocadas em algumas passagens com escadas em Lisboa. Esta ciclista levava uma bicicleta bem carregada na frente e na traseira, ia com certeza trabalhar e utilizava a bicicleta como meio de transporte, sem estas calhas não conseguiria subir as escadas. Também eu as utilizo com frequência e dão mesmo muito jeito


Belém-Lisboa

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Diz-me um vizinho meu, já com alguma idade, sempre que passo por ele: "Força que os outros já passaram", ontem, na feira da ladra ouvi uma que não ouvia há anos: "fecha a porta" e hoje alguém me disse em Sapadores: "força Artur Agostinho".!!, sim foi mesmo Artur Agostinho. Ah e outro: "com uma idade dessas e ainda vai de bicicleta"? Felizmente este tipo de comentários é cada vez mais raro. Mas imagino o que ainda devem "sofrer" as ciclistas do sexo feminino que circulam sozinhas nas suas deslocações. Paralelamente é curioso admirar as expressões de automobilistas com quem nos cruzamos: Do zangado, que acha que só empatamos e que devíamos era estar era em casa a dar ao pedal numa daquelas bicicletas fixas ao simpático que nos dá passagem tudo pode acontecer. Uns olham para nós com ar de espanto, "lá vai mais um destes malucos", outros com ar de grande compaixão, "coitadas destas pobre almas" mas os que aprecio mais e a quem me apetece gritar "saiam da lata e atrevam-se" são os que olham para nós com cara meio triste meio conformada de quem pensa "eu gostava tanto de ser capaz de fazer o mesmo mas..." A esses digo: atrevam-se!!! Vão buscar aquela bicicleta que está guardada ao tempo e ponham-na a andar. Se estiver ferrugenta ela é bonita assim, se não for de marca nem da moda , não faz mal, o que ela quer é andar, andar com o seu companheiro, o que ela quer é partilhar as estradas e os caminhos com ele(a). Vão ver que ganham uma verdadeira amiga e vão perceber que sem amigos não se pode viver.

Entretanto em Lisboa, junto ao rio, ontem pelas 8 da manhã estava mais ou menos assim e quando está assim agradecemos à Mãe Natureza por nos termos levantado cedo e ir de bicicleta para onde temos que ir. É uma alegria tão grande.