Estrela.

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Fim-de-semana grande com previsão de chuva e neve nas terras altas. Um óptimo fim-de-semana para ir com a “Cinzenta” à Serra  e á minha terra de adopção no sopé  da montanha. Cada vez me sinto mais em casa nesta região e á medida que sinto que Lisboa, a minha querida Lisboa onde nasci e vivo se vai transformando e de alguma forma afastando sinto que a Beira e o Interior se vão entranhando  cada vez mais em mim.  O sábado serviu para tratar de coisas  que se têm de tratar  quando se vai ao campo e para visitas de amigos.  Fomos nessa noite jantar a um dos melhores e mais agradáveis restaurantes da Região, “A lenda Viriato” em Unhais da Serra. Restaurante que recomendo vivamente pela sua singularidade e bom gosto, ou pela excelente comida e acolhimento. Um Restaurante fora do normal onde dá imenso prazer ir. Dizia-me há tempos um amigo que ”não vai comer fora por necessidade ou ter fome, vai pelo prazer de ir a um local agradável, onde se come uma comida diferente e de onde saímos reconfortados e bem dispostos” é este o caso da “Lenda do Viriato” . Aqui se comem iguarias como o Javali selvagem ou o fabuloso tornedó, as trutas e os excelentes produtos da região. Com ótimos acompanhamentos dos quais destaco o puré de maçã.  Todos os pratos são servidos com o requinte da época e parece que estamos sentados á mesa de um Rei a comer principescamente. Pelo meio ouvimos a história, ou uma versão da história de Viriato e dos seus feitos gloriosos contra o ocupante Romano enquanto saboreamos um dos excelentes vinhos da cada vez mais afamada região da “Beira”  ou nos deliciamos com uma tarte de abobora ou umas  "Papas de Carolo".

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A noite foi chuvosa e fria, invernal e o Domingo assim amanheceu. A Primavera  deve ter ido dar uma volta a qualquer lado, mas por ali não andava. Pelo menos até ao fim da tarde. Ainda assim arrisquei e por entre aguaceiros fortes e periodos de sol dei um dos passeios que mais gosto até perto das Minas da Panasqueira.  Quando o Sol dava um ar da sua graça as cores das flores saltavam e pairava no ar um perfume discreto mas bem perceptivel. As encostas floridas faziam-me parar e observar apenas por observar. A felicidade estava mesmo ali á mão.

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As rodas da Cinzenta rejubilavam quando aparecia o sol quente e o meu corpo e a minha mente, já tão farta de chuva, também. Chuva que tem sido uma bênção para as as ribeiras  e para  os rios que correm fartos de água distribuindo vida e abundância ás terras até há pouco ressequidas e secas. Agora é preciso que pare de chover para que os frutos amadureçam na sua doçura.

Montes Hermínios

Subir á Torre de bicicleta era um sonho antigo. Sempre achei muito difícil conseguir fazê-lo. Mas parece que com a idade tenho mais força de vontade. O esforço transformado em prazer,  a íngreme subida transformada numa singular, única e apaixonante paisagem e o facto de o conseguir ser apenas uma grande e maravilhosa vitória.

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E não poderia ter escolhido melhor dia para o fazer. Temperatura amena no sopé da Serra, sem vento e esfriando um pouco á medida que subia.

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Subir esta Serra com uma bicicleta em Aço pesada como um Burro,” Eh-lá tanto também não” diz a Cinzenta entre o divertido e o ofendido, “ sei que não tenho daqueles tubos especiais e mais não sei o quê mas também não sou assim tão pesada”!! Subir á Serra, dizia eu, antes de ser interrompido, com uma bicicleta destas,sem carbonos e afins, parece ser uma tontice das grandes, ainda por cima para um “rapaz” dos seus 54 anos .Mas não para mim, ou por outra, também ás vezes a mim me parece mas o prazer é indescritível e hoje não me veria a fazê-lo de outra maneira tal é o fascínio que tenho por este tipo de bicicletas. Bicicleta que é uma companheira e uma amiga, sobretudo para quem com elas rola solitariamente.

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Parte em terra batida da estrada Unhais da Serra-Torre.

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Subir devagar, apreciar cada momento, saborear. Parar um pouco para admirar um pequeno regato que corre livremente. Apreciar as Vacas comendo a erva fresca e verde, tentar encetar uma pequena conversa com elas, sim elas ouvem-nos e olham para nós por vezes com aquele ar de compaixão de quem nos considera tão inteligentes mas também, por vezes, tão tristes. São sensíveis e sábias as nossas amigas Vacas.

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Nas duas noites anteriores tinha nevado acima dos 700/800  metros e a neve que já via há muito ao longe começa a aparecer. Nunca tinha andado de bicicleta com neve, a sensação  de felicidade é indiscritível.

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Comoção, maravilhamento, felicidade. Apenas o pequeno senão de não ter com quem partilhar no momento tais sentimentos, era apenas eu e a Cinzenta, que não nos queixamos e somos muito felizes juntos mas que naquele momento gostaríamos de ter tido mais alguém com quem partilhar tais emoções...

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E, á medida que subimos, vai aparecendo cada vez mais neve, há muitos anos que a Serra da Estrela não estava assim e eu e a cinzenta com tanta sorte em ter o privilégio de testemunhar este momento.

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Pedalada atrás de pedalada vamos subindo e lembro-me da conversa da noite anterior na Lenda do Viriato, de como estas montanhas anteriormente se chamavam Montes Hermínios, das lutas gloriosas  pela independência. Do que devem ter sofrido soldados e povo nestes montes. Vou-me lembrando também dos pastores e outras gentes que outrora  percorriam estas terras por obrigação e necessidade, tempos muito duros nada comparados com a facilidade com que se percorrem hoje em dia, por simples prazer, estes caminhos.

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Passando o centro de limpeza de neve começa a parte mais complicada, o frio ainda não incomoda muito embora a temperatura já ronde 1 grau positivo, o vento é pouco mas começamos a ter pendentes mais acentuadas e a altitude começa a dificultar um pouco a respiração. Nada que amedronte as rodas cansadas da Cinzenta  ou as pernas dum Ciclista já algo idoso mas o facto é que tivemos de parar algumas vezes,  que aproveitavamos para apreciar a maravilhosa vista.

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E eis que chegamos á Torre cansados mas felizes. Na pequena subida que antecede a dita o muro de neve era alto como não se via há muitos anos. Pessoas incentivavam-nos dando palavras carinhosas e de espanto, outros batiam até palmas e tiravam fotografias. Uma senhora perguntou-me mesmo se queria um empurrão, ao que respondi com um enorme sorriso: "Agora que estou a chegar é que não"!!  Algumas pessoas estavam verdadeiramente espantadas e com alguma razão, é que afinal não é todos os dias que se  testemunha a chegada de dois idosos ao Alto da Torre.

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Chegados à torre sentimos pela primeira vez o frio,  a temperatura era de -2 Graus e estava algum nevoeiro.  Quando parei junto ao Centro Comercial de pouco interesse é que senti como estava frio. Toda a gente á minha volta vestida com roupa adequada e eu naquela figura. As minhas pernas tremiam e as rodas da Cinzenta também. Vesti á pressa  uma camisola mais grossa, dei a volta ao largo e comecei rapidamente a descer. E essa acabou por ser a parte mais dolorosa pois o frio e a intensidade da descida fizeram-nos sofrer um pouco mais que a subida.  Eu e a Cinzenta já não temos idade nem capacidade para tanta travagem, para tanto apelo á velocidade e para tanta curva e contra-curva.

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Foi excelente este passeio que recomendo vivamente. Como já referi tive a sorte e o privilégio de o  fazer  num dia perfeito em todos os apectos. Aconselho  a que o façam em companhia e não sozinhos como o fiz. Com companhia tudo é mais fácil e divertido.  Tenham sempre atenção ao tempo que faz na Serra e ao facto deste mudar muito rapidamente em certas ocasiões. É imprescindível levar um agasalho pois as diferenças de temperatura podem ser muito grandes e descer não é a mesma coisa que subir em termos térmicos. Não esquecer de levar comida e de beber, isso é imprescidivel. Bons passeios.