Velo Corvo

Pedro, o artesão de bicicletas.

Estarão os artesãos a acabar? Estarão os ofícios que dependem do trabalho manual a acabar? Estarão para terminar as pequenas marcenarias, as pequenas carpintarias ou as pequenas olarias?  Enquanto houverem pessoas como o Pedro não. O Pedro trocou a Engenharia pelo engenho do fazer, numa arte que dá vida a coisas inanimadas. Tal como um Mestre Carpinteiro tem a sua carpintaria e dá nova vida à madeira ou um Mestre Oleiro tem a sua olaria onde transforma o barro em peças únicas, onde cria e da´ vida a objectos maravilhosos o Pedro tem a sua pequena oficina e todos os dias suja as suas mãos com o óleo das bicicletas. Todos os dias as suas mãos mexem no aço nobre de uma bicicleta antiga ou nas correntes e nos pedais que a ajudam a andar.  Tal como um Mestre Relojoeiro, tal como um Mestre Ceramista ou pintor ,tal como um Mestre Marceneiro o Pedro todos os dias cria e transforma, todos os dias as suas mãos  se envolvem e enlaçam com a matéria prima do seu oficio. Todos os dias o Pedro cria vida onde outros apenas vêm ferro ou rodas. O Pedro é um Mestre nas sua arte e as bicicletas sabem disso. Sim sabem, porque uma bicicleta antiga não é apenas um conjunto de ferros com dois aros, uma bicicleta antiga tem personalidade, chega a ter alma. Na sua oficina o Pedro e as bicicletas fundem-se, o Pedro é uma bicicleta e uma bicicleta é o Pedro. Das antigas, das com memoria, das que respeitam o passado, das que vivem com a simplicidade das simples coisas boas e maravilhosas. Das que não se deixam influenciar apenas pelas modas ou pelo que não é autentico. A oficina do Pedro não é apenas uma oficina, a oficina do Pedro é um local de encontro, é um local de boas conversas e de amizades que se vão construindo. A oficina do Pedro, a Velo Corvo, é um oásis analógico num mundo cada vez mais tecnológico.  Aqui conversa-se e sonham-se aventuras, aqui bebe-se um café reconfortante e ouve-se uma palavra de estima e optimismo. Da loja do Pedro ninguém sai triste. A loja do Pedro chega a ser um local de terapia.

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Acabarão em breve os artesãos ?  Não enquanto existirem pessoas como o Pedro e outras que felizmente tenho a honra de conhecer, que dignificam a arte, que amam os materiais que trabalham manualmente, que fazem desta sociedade uma sociedade mais humana e que com a sua arte ajudam a transformar o mundo e a fazer muito mais feliz quem está á sua volta.

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Curta entrevista com o Pedro Gil

Como é que um engenheiro muda a sua vida,sai duma vida aparentemente confortável num emprego e abre uma oficina de bicicletas?

Simplesmente, mudando. Vencendo a inércia, o não fazer nada, o acomodar-se, o ter medo de que as coisas não corram bem, a incerteza. Não era feliz. Ganhava mais dinheiro, de certeza. Mas, para que é que serve o dinheiro sem felicidade? A altura da minha vida em que ganhei mais dinheiro foi também a minha altura menos feliz. Agora, sou mais livre, com menos dinheiro mas infinitamente mais feliz.

Que procuras oferecer aos teus clientes que muitas vezes passam a ser amigos?

Um ponto recorrente que surgia sempre que falávamos de lojas de bicicleta era que por vezes o antendimento era bom, mas frio. Por vezes, muitas das lojas, ainda estavam no regime frio do balcão. A bicicleta, para mim, não é como um electrodoméstico que se avaria e para o qual se compra uma qualquer peça de substituição (mas alguém ainda arranja pequenos electrodomésticos?). A bicicleta, geralmente tem alma. Logo, a loja de bicicletas tem de ter alma e significado. E, aqueles que entendem o que estou a fazer com a Velo Corvo, tornam-se meus amigos rapidamente porque sabem que farei tudo para que saiam da loja satisfeitos. E é isso que quero fazer, sempre. Procurar dar o melhor atendimento. Seja para uma camara de ar como para uma bicicleta montada às peças.

O que te atrai numa bicicleta antiga?

Penso que sobretudo terá a ver com questões estéticas. Muito simplesmente, para as bicicletas de ciclismo, estrada, todo o caminho, randonneuses, etc, dos anos 70 para a frente tudo fica mais feio ( e pior). Para as bicicletas de todo o terreno, de 95 para a frente. Curiosamente, com o meu primeiro ordenado num emprego part-time como mecânico de bicicletas, comprei uns travões V-brake, Shimano XT. Acho que a partir daí (anos 90), as coisas perderam o seu encanto- o excesso de tecnologia, ou melhor: o aumentar da “rede” necessária para tornar possível a construção de uma bicicleta. A super-industrialização e máquina fria do vender e vender depressa, para no ano seguinte vender uma qualquer “melhoria”. 

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Achas possível uma bicicleta ter alguma espécie de "alma"?

Pois claro que sim. Contudo, não podemos pegar numa bicicleta, tirá-la da caixa, e esperar que ela tenha alma. Muitas pessoas dão nomes à bicicleta. Logo aí, atribuimos uma personificação, uma sensação de que há algo mais do que metal. Mas só isto não basta. Temos de fazer qualquer tipo de alteração. Nem que seja colocar uma campainha. E, quanto mais única for a bicicleta, mais alma terá. Quanto mais uso têm certas peças, mais alma terá. O selim que já esteve em várias bicicletas, as manetes de travão que já tenho desde 95, a mala de guiador que uso todos os dias, etc etc. Todas as minhas bicicletas “boas” foram montadas com peças usadas /novas. E é precisamente este grau de intervenção humana, não standardizada, que dá a “unicidade” e alma à bicicleta. E claro, quanto mais uso tiver a bicicleta, mais alma terá.

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A tua loja é muito mais que uma pequena oficina de bicicletas não é ?

Claro que sim! A ideia não é só arranjar bicicletas. A ideia é mesmo juntar o maior número de pessoas que pensem de maneira mais ou menos semelhante e irmos todos pedalar. 

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Qual a sensação quando um cliente vem buscar uma bicicleta e sentes que gostou muito do trabalho que fizeste?

A sensação é óbviamente boa. Conseguir, com o meu trabalho manual, fruto de décadas de aprendizagem, melhorar algo que , para muita gente tem um lugar fulcral na vida delas (a bicicleta), é para mim muito recompensador. 

Os passeios velo corvo.

Já são míticos os passeios VC . Como vês esses passeios e qual o seu objectivo?

Na pergunta está parte da resposta. Míticos, não por ser a Velo Corvo, mas sim, pelo facto de a Velo Corvo ajudar a desvendar a possibilidade que cada um de nós temos de ir um bocado mais longe. Quantos de nós não passamos horas a vermos fotos no instagram e a pensar “quem me dera conseguir fazer”? A verdade é que conseguimos, pelo menos, fazer um bocadinho mais do que já fazemos! Algo mais do que ficar em casa a ver fotos no instagram. Nem que seja uma tarde num qualquer parque, ou uma manhã a subir uma montanha. Nem que seja uma voltinha ao quarteirão durante a semana. 

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Andar devagar, apreciar a paisagem, conviver com amigos...o que é para ti andar de bicicleta?

Ora, é isso mesmo. Andar a uma velocidade mais ou menos confortável, sentir a paisagem e conviver com amigos. Isso tudo mas também o pedalar como uma espécie de meditação.

O Picnic é um dos pontos altos destes passeios...

Isso e o café! Para quê ir pedalar, para chegar lá acima e comer alpista? Não faz muito sentido alimentar-me de barras energéticas, não achas? Acho pouco recompensador. Para além disso, é bom para meter a conversa em dia e se tiver sol....

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Onde gostas de passear ? Sei que Sintra é uma das tuas paixões …

Gosto de passear em Sintra, porque reúne um conjunto de qualidades: paisagem dramática, subida excelente, perto de casa, árvores, bom sítio para acampar e fazer picnics, e uma descida linda. Mais genéricamente, gosto de passear em sítios bonitos, SEM carros. Algo que me transporte para fora da minha vivência diária, sobretudo.

O que é para ti o verdadeiro ciclo-turismo?

Bem, o nome cicloturismo, em Portugal, é usado para tudo e mais alguma coisa: passeios com carros vassoura a tocar música pimba, com multidões envoltas em licra, com bicicletas desadequadas. O cicloturismo tem de ter duas coisas: ciclo e turismo. Parece que a parte do turismo, por cá, é substituida por um porco no espeto. Nada contra comer, mas pelo menos uma visita a um monumento qualquer, não? E a parte estética também é importante. A ideia do cicloturismo será sair cedo e chegar tarde, levar a mala de guiador cheia de tralha, ir a algum sítio com alguma história e significado, tentar aprender alguma coisa, tirar umas fotos e voltar para casa satisfeito. E tudo isto de bicicleta. Pronto. Simples. Ah, e de preferência sem usar carro nem roupa de licra. 

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Como vês o desenvolvimento do uso da bicicleta como meio de transporte em Lisboa e que mudanças gostarias de ver na cidade?

Vejo com bons e felizes olhos. Os erros feitos nos anos 80 e 90 têm de ser corrigidos. Tanto a nível urbanistico, de infraestruturas, como a nível de mentalidades (se bem que estes se calhar ainda vêm de mais atrás). Por mais que se tente dar a volta à situação, uma boa percentagem de pessoas que vivem nos grandes centros urbanos têm de mudar a sua mentalidade. Não pode haver situações individuais para cada pessoa. Não podemos dispender de espaço vital, em locais já densamente populados, para que os automobilistas possam estacionar, quase gratuitamente. A cidade é de todos e não só de alguns. E, se olharmos de um ponto de vista ainda mais exterior, o carro está ligado a tantos outros fenómenos nocivos à vida humana. Logo, tudo o que limite o seu uso, é para mim, positivo. Radical? Sim, porque vou à radix, raiz do problema. A raiz do problema é mesmo esta: a cidade tem espaço limitado, o planeta tem recursos limitados. Logo, é fisicamente impossível continuar a viver como vivemos. 

Relativamente a mudanças. Para já, multas constantes aos infractores. O excesso de velocidade é constante, mesmo em ruas estreitas, perto de escolas, etc. Há avenidas que são utilizadas como autoestradas. A Avenida de Roma não é a autoestrada de Roma! 

E atenção: esta desculpabilização não é exclusiva a Lisboa. Em qualquer aldeia, há um carro a circular em excesso de velocidade. Fiscalização? Pouca. E quando a há, é a crítica do costume. “É caça à multa”. Bem, se não houver infracção, não há multa, certo?

Logo aí, poderia ajudar a reduzir a sensação de insegurança que sentimos, como utilizadores da bicicleta, ao circular nas ruas. Outras alterações: construção de mais ciclovias, mas das que funcionem. Alteração de algumas regras do código da estrada, que permitam por exemplo, a circulação em contramão em algumas ruas, (por ciclistas) e que permitam a passagem com vermelho em determinadas circunstâncias.

Algumas palavras finais? 

Procurar a felicidade em pedalar simplesmente por pedalar. 

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Sei que o Pedro gosta de escrever e por isso mesmo pedil-he que escrevesse um pequeno texto sobre a sua loja. Escreveu este texto numa sua antiga máquina de escrever e obviamente que não resisti a publicar o texto na sua versão original.

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