Lojas que gosto. Cenas a Pedal-Lisboa

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A cenas a pedal já fez 11 anos em Setembro.  Lisbon Cycling falou com a Ana para descobrir o que levou um casal tão jovem a investir neste negocio numa cidade onde muito pouca gente andava de bicicleta.

LC- Ana , como é que  há dez anos se corria o risco de investir num negocio de bicicletas em Lisboa? Sobretudo na vertente em que vocês investiram, mais virada para o ciclismo urbano, de viagem e até de carga.

Ana: Bem, há 10 anos tínhamos 25 anos  e éramos muito ingénuos (risos). A sério, quando criamos a “Cenas a Pedal” não a criámos com a prespectiva do empreendedor que vê uma oportunidade de negocio para servir o mercado e também tirar partido dessa oportunidade.  Essa oportunidade realmente não existia. O nosso objectivo era  poder contribuir para uma mudança cultural , digamos assim.

LC: Como ?

ANA:  Pensámos que isto poderia passar  pelo facto de não haver exemplos que incentivassem a uma mudança. Se não virmos ninguém a utilizar uma determinada ferramenta se calhar nunca pensamos que também a podemos utilizar, mas se vir-mos alguém a fazer determinada coisa se calhar já pensamos que também podemos conseguir fazer isso.  A ideia de fundar a empresa foi a de ajudar a que certos  tipos de soluções para a mobilidade em bicicleta sejam mais fáceis de ver e adquirir cá .  No fundo a missão a que nos propusemos era mais para uma associação só que nós éramos só dois  e não conhecíamos mais ninguém. Mas na empresa temos mais autonomia para decidir como fazer as coisas e isso é uma vantagem.  Independentemente da forma como criámos a empresa o que nos levou a criá-la foi o desejo de partilharmos com as pessoas uma paixão que nós tínhamos, éramos fãs de bicicletas, éramos fãs de usar a bicicleta em vários contextos e ajudar as pessoas que nós queríamos contagiar a aderir a este estilo de vida.

LC: Têm uma escola de Bicicleta, o que é que pretendem com esta escola?

Ana: A escola pretende ensinar pessoas a andar de bicicleta. Ela surgiu a partir do nosso desejo de aprender a conduzir duma forma mais eficaz, ou seja, reduzir as más experiencias, encontrar alternativas para uma condução mais segura e confortável. Tivemos formação, estudámos e percebemos que isso teve grande impacto na nossa  maneira de usar a bicicleta e melhorou muito a nossa experiencia. A partir desta constatação decidimos que seria muito útil partilharmos a nossa experiência com outras pessoas. Inicialmente ela estava focada em aprender a conduzir, e apesar nós já andarmos de bicicleta na estrada, aprendemos imenso. Depois muitas pessoas nos perguntaram se ensinávamos a andar a partir do zero, o que nos deixou muito surpresos, pois muitos eram adultos.  Tínhamos a ideia que toda a gente sabia andar de bicicleta ,mas não, não é assim e existe uma fracção  significativa da população adulta que não sabe andar ou anda mal e então desenvolvemos métodos para ajudar essas pessoas. Hoje em dia essa vertente tem bastante expressão no nosso trabalho.

LC: Achas importante educar as pessoas para a partilha da estrada?

Ana: Sim, é particularmente importante ensinar as pessoas a saber integrar-se  no meio rodoviário  e a saber lidar com as outras pessoas. Não encarar as estradas, os passeios ou as ciclovias como um terreno de batalha em que os outros estão lá para lhes fazer mal, temos que perceber que as coisas só funcionam se as pessoas cooperarem e que muitas vezes quando as coisas correm mal de parte a parte não é, na maioria das vezes, uma coisa deliberada , muitas vezes são falhas de comunicação, falhas  humanas etc. Por isso trabalhamos muito nas aulas de condução como aprender a identificar essas falhas humanas e as próprias falhas do sistema que potenciam  as falhas humanas e que muitas vezes não são visíveis a olho nu. Por exemplo muita gente vai para uma ciclovia e pensa que” aqui posso andar, é seguro “ mas há uma série de coisas que podem acontecer e se não formos educados para isso não damos por elas até ao dia em que as coisas correm mal. Se formos educados para prevenir  armadilhas, para percebermos como as coisas funcionam, para identificar problemas é muito mais fácil antecipar situações perigosas e as coisas correm muito melhor. Vale mesmo a pena investir um pouco na nossa educação nem que seja pesquisando na internet pois existe muita informação disponível sobre estes temas.

LC: Achas que tem havido uma evolução no uso da Bicicleta em Lisboa ou as coisas estão mais ou menos estagnadas?

Ana: Realmente nós agora cruzamo-nos com muitas pessoas e é óbvio que há muito mais gente a andar de bicicleta. Por vezes é um pouco difícil distinguir o que é transporte  ou o que é  lazer ou  até desporto mas sim vêm-se muito mais pessoas a andar de bicicleta. Têm que haver mais investimentos nas politicas publicas para que este desenvolvimento seja mais acentuado. Parece-me que em 2012/13 houve um grande aumento mas entretanto dá a impressão que as coisas estagnaram um pouco. Se não dermos condições para que andar de bicicleta seja agradável as pessoas tendem a parar, desistem porque a espectativa que tinham não se confirmou.

LC: Qual é para ti a principal dificuldade em andar de bicicleta em Lisboa?

Ana: Lisboa é uma cidade ainda muito permeável ao automóvel e há muita dificuldade em escolher uma rota  confortável porque os carros estão por todo o lado. Escolher rotas, acho que essa é a grande dificuldade. Podes até escolher ir apenas por ciclovias mas muitas vezes chegas ao fim duma e não sabes bem o que fazer nem por onde ir. Devia haver um aconselhamento mais eficaz para rotas mais amigáveis. Estamos neste momento a fazer um inquérito aos nossos ex-alunos que são cerca de 800 e eles referem muito que uma das coisas que os impede de utilizar mais a bicicleta é não conhecer sítios agradáveis e seguros, não terem sinalética em que possam confiar.

LC: É muito mais isso que o mito das colinas não é?

Ana: Acho que sim, porque as colinas têm alternativas, podem-se contornar ou  existe até neste momento a alternativa da bicicleta elétrica que  ajuda muito. Ou as dobráveis que podem ser utilizadas em conjunto com os transportes públicos. Se a pessoa tiver vontade as colinas não são realmente um problema.

LC: pensas que a bicicleta eléctrica é uma solução para algumas das dificuldades de Lisboa ou de um utilizador que não quer ou não pode despender determinado esforço?

Ana: Sim, eu sou uma grande fã, andei nos últimos 4 anos com duas bicicletas citadinas diferentes eléctricas. Digamos que por exemplo  a bicicleta eléctrica reduz a “energia de activação” duma pessoa que quer começar a andar , torna as distancias e as subidas mais fáceis e até atenua alguns pormenores mais complicados do transito. Muitas vezes a bicicleta eléctrica  serve de transição para uma bicicleta normal pois a pessoa começa a ganhar confiança e a sentir que é capaz. Uma Bicicleta eléctrica pode ajudar a passar de uma forma muito mais tranquila de um estilo de vida sedentário para um estilo de vida mais activo. Aconselho a bicicleta eléctrica a toda a gente que tem medo das subidas, das colinas, do não ser capaz, uma eléctrica minimamente decente resolve muito  destes problemas. Há que acabar com este preconceito em relação à bicicleta eléctrica.

LC: O que achas que falta em Lisboa para que haja mais utilização de bicicletas na cidade?

Ana: É uma questão de politicas publicas, as pessoas vão para a bicicleta naturalmente quando isso fizer sentido, neste momento as pessoas usam muito carro, são muito dependentes dele mas se começares a tornar essa dependência mais difícil  e os transportes públicos, por exemplo, começarem a funcionar melhor as pessoas começam a procurar alternativas.  Se tivermos menos carros na cidade vai ser muito mais seguro andar a pé ou de bicicleta. São precisas medidas públicas que devolvam o espaço ás pessoas  e que acabem com estes apoios ao uso do automóvel. Não se deve obviamente obrigar ninguém a andar de bicicleta mas deve-se reduzir um bom bocado o uso do automóvel, depois as pessoas que escolham a alternativa que querem que será de certeza melhor para a pessoa e para a sociedade. Não tenho nada contra o automóvel que é muito útil e faz falta a muitas pessoas em muita situações, simplesmente é uma questão de dosearmos as coisas  e fazer ver a quem usa que isso tem um grande impacto em toda a sociedade.

LC: Qual é o público alvo da vossa loja?

Ana: São os “commuters”, são as famílias, a partir da segunda criança  as coisas complicam-se e é mais difícil encontrar nas lojas normais soluções  adequadas ao que precisam. São viajantes em bicicleta, pessoas com algum tipo de “necessidade especial” a quem  tentamos arranjar soluções e fãs de coisas mais divertidas como por exemplo as bicicletas reclinadas. Temos também bicicletas de carga e muitas outras coisas interessantes, úteis e divertidas para quem anda de bicicleta.

LC: sei que têm o projecto da “Casa da Bicicultura”. Que projecto é esse?

ANA.: Da experiência que temos ao longo destes 11 anos já deu para perceber quais são as dificuldades de quem quer começar a andar de bicicleta e não o faz, ou de quem quer andar mais e não consegue. Somos um país periférico dos centros do uso de bicicleta e então surgiu a ideia de formar uma espécie de clube de gente que gosta de bicicletas e que se foque na cultura da bicicleta. A ideia é criar um espaço físico onde exista uma “veloteca”, por nomeadamente, onde existam coisas que cá em Portugal sejam difíceis de ver ao vivo ou comprar, que se  possam experimentar como se levassem um livro para ler, ter acesso a utensílios que não necessitamos sempre mas que ali estão disponíveis para quando necessitamos.  Que seja um espaço de encontro onde as pessoas possam conversar sobre as suas experiências ou tirar duvidas. Onde possam ter aulas de mecânica e de condução. Onde se possa trabalhar na bicicleta num sítio bem equipado onde aprendes com alguém e  podes tirar dúvidas. Onde se possam  organizar passeios e encontros, etc.  É uma maneira de pormos em prática estes dez anos de experiência, agora numa experiência colectiva.

 

Notas: esta entrevista já foi feita em 2016, ainda no espaço de Alvalade. Neste momento a base da loja e oficina é num armazém em Marvila. A Ana e o Bruno continuam a atender as pessoas por email (e telefone), e presencialmente por marcação - não são uma loja normal nem sequer nos horários. :-)