Dias luminosos e felizes.

“já sei!-exclamou o Harris, Uma viagem de bicicleta! O George parecia pouco convencido.-Há muito que subir numa viagem de bicicleta-disse ele, e temos o vento contra nós.- E muito que descer, com vento a favor -contrapôs o Harris.”

In “Três homens em viagem” de Jerome K. Jerome

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São oito da manhã  quando, na estação de Sta. Apolónia em Lisboa, me preparo para apanhar o comboio em direção á Covilhã.  O meu destino é o Fundão onde iniciarei mais uma pequena (grande para mim)  viagem de bicicleta.  O nervosismo e o entusiasmo  são os mesmos de sempre. Como se fosse a primeira vez. Por isso mesmo a noite foi mal dormida, ansiando pela partida.

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Nesta linha existe apenas um lugar para a bicicleta, o que é manifestamente pouco e espero mude o mais rapidamente possível.  A bicicleta é uma privilegiada pois viaja em primeira classe, enquanto nós , os simples  e modestos ciclistas viajamos em  segunda. É compreensível pois a nossa bicicleta deve ser alvo de carinho  e bem-estar e a CP está consciente disso. Uma bicicleta deve ser sempre muito bem tratada, sobretudo se já tiver uns anos e começar a sentir o peso dos cabos e dos carretos. A minha tem e eu e ela ficamos muito contentes que vá bem instalada. A nossa companheira merece sempre o melhor.

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Durante a viagem vamos sentados no lado esquerdo do comboio e por isso pode passar-nos despercebida a beleza da paisagem que nos é dada de presente no lado direito. O Tejo acompanha-nos durante grande parte da viagem e a sua beleza é indescritível.

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Cerca de 3 horas depois chegamos ao Fundão. A fome já aperta, a minha, não a da minha companheira que está em pulgas  por se por a caminho. Espera um pouco, digo-lhe,  vou só ali comer uma “sande” de Bacalhau frito à tasca da estação, são deliciosas . E são mesmo. Comi duas e uma sopa de feijão com lombarda, à antiga, com belos pedaços de legumes a flutuar. Daquelas de caldo grosso e saboroso. Quando entrei na dita tasca olharam-me com ar um pouco desconfiado mas quando pedi, sem hesitar, a sopa e a bela da “Sande” logo perceberam que eu era um habitual e sabia ao que vinha. E como sempre não sai desiludido, bem pelo contrário.

Almoço em boa companhia, com gente da terra, e a minha companheira lá fora à espera ansiosa.  Quando saí disse-lhe: “tens de ter um pouquinho mais de paciência porque ainda vou ali comer um pastel de nata de cereja de sobremesa", e lá fomos, ela com as rodas e os pedais ansiosos por se porem à estrada e eu já só a pensar num pastelinho de cereja. Voltei a comer dois, um para mim outro para ela e depois, sem mais demoras  partimos estrada fora, já com o estômago aconchegado pois não se sabia quando voltaríamos a comer uma refeição quentinha.

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Saímos do Fundão em direção ao Paul passando pelo Peso e pela Coutada, é extremamente bonita esta zona. Pelas estradas com pouco movimento fomos , eu e a minha companheira, apreciando a paisagem com a Estrela a acompanhar-nos, a imponente Serra da Estrela a relembrar-nos sempre  como somos pequenos perante a sua beleza. Passamos pelo Zêzere e depois pela Ribeira do Paul, dois rasgos de água fantasticos e que a seca que persiste ainda não conseguiu apagar. Infelizmente as marcas dos trágicos incêndios deste ano fazem-se sentir em alguma zonas.

Cada vez gosto mais do interior do País.  A Beira-Interior então atrai-me cada vez mais: O meu amor e paixão por esta região não pára de aumentar. As paisagens, as pessoas, a gastronomia, a solidão saudável de que podemos usufruir, o silêncio já inexistente num litoral cheio de gente e  cada vez mais agressivo. A calma , a tranquilidade dos dias vagarosos. A luz  forte que satura as cores, o ar que se respira, puro e limpo. 

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Confesso que estive quase uma hora a olhar para esta Ribeira antes de me dirigir para o local onde iria passar a noite. O barulho suave da água fria  e pura que corria  não me deixava ir embora.  Era quase noite quando enfim consegui partir. O frio apertava já e a vontade de chegar ao quente do meu local de dormida já começava  a ser uma realidade.

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Nesta região as noite são muito frias, a temperatura durante a noite já baixa dos zero graus. A amplitude térmica entre o dia e a noite é grande. Nada como uma pequena e acolhedora Casa de Madeira para passar a noite fria, com uma lareira acesa e uma refeição a condizer. Existem momentos maravilhosamente simples que que nos deliciam. A Serra continua  a ser a nossa companhia permanente. O silencio e os barulhos da floresta embalam um ciclista cansado. A bicicleta, nossa companheira e amiga incansável também pede descanso. São 20,00 Horas e ambos dormimos um sono descansado e profundo. Lá fora a noite escura adensa-se e as árvores protegem-nos, em silêncio.

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São 7,00 da manhã e não é necessário qualquer despertador para que acorde.  Os ruídos da manhã, com os pássaros a cantar e a iniciarem os seus rituais e a luz clara e brilhante fazem com que pule da cama. A bicicleta já me  espera para mais um dia de passeio . Quando abro a porta de casa um manto branco envolve a terra, a geada da noite ainda vai persistir até entrar em contacto direto com o sol  que se aproxima.

Depois de um bom pequeno almoço é tempo de partir, não sem preparar um pequeno farnel  pois por esta zona por vezes não é fácil encontrar uma refeição ligeira e o melhor é ir prevenido. Sandes de Salmão ou  bolinhos caseiros faziam parte da ementa. O destino deste dia são as Minas da Panasqueira, local onde nunca tinha ido mas que há muito queria visitar.  Cerca de 30 Km de subida e descida para lá chegar. Não é nada, disse a minha companheira, pois, disse-lhe eu, não é nada, sou eu que puxo por ti e ambos nos rimos a bom rir da piada sem graça, coisas parvas de quem está feliz apenas por estar, piadas que apenas os amigos entendem e acham graça. São assim os amigos. A caminho que se faz tarde diz a minha companheira, a caminho digo eu. O entusiasmo esse é mútuo e partilhado. Como apenas os amigos sabem partilhar.

A Caminho da Panasqueira

e a jornada do segundo dia começa...Paul, Casegas...

Não, não me atrevo a dizer o queijo da Quinta do Casal é o melhor queijo do mundo, nem sequer que é o melhor de toda a região. Longe de mim tal atrevimento. Não me atrevo até porque nunca os provei todos e não sou sequer um entendido. Mas posso dizer que é o que mais gosto, este queijo para mim é simplesmente maravilhoso.  E não,  não vem nos roteiros “Gourmet” de revistas famosas ou é aconselhado por grandes magos da matéria. Sou apenas eu que gosto e recomendo. Se por lá passarem provem e depois digam qualquer coisa.

Em Casegas as cores de Outono recebem-nos com todo o seu esplendor.

Ao fazer uma curva, o Zêzere... que nos leva ás Minas da Panasqueira.

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Há muito que andava para vir aqui. Gosto de património industrial abandonado gosto desta solidão onde a natureza se mistura com o  ferro que já teve vida. Com espaços outrora tão usados que perderam o interesse dos homens. Será que estes espaços e este ferro sentem falta da azafama de outros tempos? Será que sentem a solidão? Estes locais abandonados, ou semi-abandonados, como é o caso exercem  fascínio sobre mim. Subimos a bom subir para chegar a Cabeço do Peão, subida não muito longa mas íngreme como me tinha avisado um senhor na estrada, tem a certeza que vai subir por aí ? perguntou ele olhando para mim e pensando coisas algo estranhas sobre a minha pessoa, vou, disse eu e depois tenciono regressar por esta estrada ao Paul. Olhe que por onde veio é muito melhor, não sobe tanto disse ele amavelmente...E fui, mais tarde e mais á frente passou por mim e acenou desejando-me uma boa viagem...

As Minas da Panasqueira tiveram o seu auge de produção durante a 2ª Guerra Mundial, ao que parece vendíamos Volfrâmio para os dois lados e muita gente da zona enriqueceu. Conta-se que havia quem fizesse cigarros com notas de 20 escudos tal era a fartura. As Minas da Panasqueira têm , por incrível que possa parecer , mais de  12 mil Km de túneis escavados, um verdadeiro mundo debaixo da terra. Hoje parte da mina está encerrada estando só a funcionar a parte junto à localidade da Barroca Grande.

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Poderá um Ser-Humano ser feliz a viajar apenas com a sua Bicicleta?  Cada vez mais penso que sim. Eu sou, porque o faço voluntariamente e porque me sinto muito bem assim. É verdade que também poderemos ser muito felizes a viajar de moto ou de automóvel mas não é a mesma coisa. Uma bicicleta depende apenas de nós para andar, não leva combustível nem tem motor. É apenas ela e nós, somos apenas os dois e precisamos apenas um do outro. A bicicleta é como uma extensão de nós próprios, faz parte da nossa fisionomia. Dá-nos a velocidade que a natureza não nos deu, dá-nos a liberdade . Quando pedalamos sós dá-nos também uma solidão confortável, de estarmos bem com nós próprios e com o que nos envolve. Esta solidão não é triste nem melancólica, bem pelo contrário, é uma solidão feliz e luminosa, como os dias que passam por nós , cheios de cor e aconchego. Andar de bicicleta só ou com a  maravilhosa companhia de amigos é um bálsamo para a vida, um privilégio que quem experimenta não quer deixar.  A bicicleta leva-nos onde queremos chegar mas por vezes, sem que percebamos, leva-nos por caminhos por onde não sonhavamos ir.

Para terminar o dia nada como uma festa. No caso a Festa dos Miscaros em Alcaide no Concelho do Fundão. Festa rija e boa com amigos e onde não faltou um carrossel a pedal que fazia a alegria das crianças.