Calhas que dão jeito.

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Há dias numa página de facebook alguém questionava a utilidade destas calhas colocadas em algumas passagens com escadas em Lisboa. Esta ciclista levava uma bicicleta bem carregada na frente e na traseira, ia com certeza trabalhar e utilizava a bicicleta como meio de transporte, sem estas calhas não conseguiria subir as escadas. Também eu as utilizo com frequência e dão mesmo muito jeito

Ardenne Bags

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Podia falar-vos apenas da qualidade e da beleza das malas Ardenne, que têm este nome devido ao facto da Marie ter nascido nesta zona de França, faria isso se falasse  apenas uma marca de malas e sacos bons e bonitos mas a marca Ardenne é muito mais que isso.  São sacos feitos manualmente  por alguém que gosta mesmo muito de bicicletas, de andar nelas e sobretudo que coloca muito amor no que faz. Os sacos Ardenne para além de muito bons, úteis e bonitos nunca são iguais, são personalizados e valorizam, e de que maneira, a nossa bicicleta.  A Marie faz tudo isto com paixão, com a mesma paixão com que usa e trata das suas bicicletas.  Essa é a grande diferença e isso é notório em casa saco, em cada mala que faz com as suas mãos. A Marie  é uma artesã da nova geração, das que não querem deixar estas artes morrerem. E ainda bem pois  faz com isso felizes os seus clientes e amigos. Apresento-vos a Marie Viera e a sua Ardenne.

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LC: Quando começaste a fazer malas e outros acessórios para bicicletas e porquê?

MV: Comecei a fazer malas há alguns anos, simplesmente porque precisava de uma. Tinha começado a usar a bicicleta para as minhas deslocações e precisava de uma forma de transportar as minhas coisas. Como já costurava roupa há alguns anos tinha algum material em casa e improvisei o resto. Devo dizerque não ficou grande coisa.... Mas serviu para alguém ver e se interessar, e pedir uns alforges caseiros. A partir daí vi que tinha algum potencial, melhorei os materiais, comprei uma máquina de costura dos anos 60 própria para o serviço e fui fazendo mais malas a pedido.

LC: Qual a diferença entre uma mala feita à mão e uma feita em série?

MV: Acho que a grande diferença está na produção em série vs produção artesanal ou mesmo em pequena escala. Todos os sacos que vemos foram cosidos por alguém, algures. Diria que a produção artesanal é mais intimista. Pode-se conversar com quem vai fazer o trabalho, pode se pedir algo mais personalizado. A nível humano é outro tipo experiência, muito diferente da de entrar numa grande superfície e comprar a mala genérica x ou y.

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LC: Que valorizas mais quando fazes uma mala?

MV: Quando faço uma mala valorizo o rigor. Gosto de fazer costuraras bonitas e direitas e de furar as correias todas bem alinhadas, por exemplo. Valorizo também o lado artesanal do processo, sei que mesmo fazendo dois modelos iguais, na mesma cor, nunca serão exatamente iguais, cada uma tem qualquer coisa que a diferencia.

LC: Que tipo de malas e acessórios fazes?

MV: Faço tudo um pouco. Ultimamente tenho feito muitas malas de guiador, de vários tamanhos. Mas também faço malas de selim, alforges, malas a tiracolo , rolos de ferramentas e em breve terei um modelo de mochila. Também já fiz malas com base em fotografias de anúncios antigos e meia dúzia de medidas. Na verdade só sou limitada pela imaginação e bom senso.

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LC: Que cuidados tens na escolha de materiais?

MV: Escolho materiais resistentes que envelheçam bem. Aqueles que quanto mais os usamos mais bonitos ficam, ganham carácter. Assim cada mala acaba por ganhar padrões de uso únicos, que só a tornam mais bonita

LC: Como nasceu o teu entusiasmo pelas bicicletas? Sei que tens uma história muito interessante de quando te inscreveste num fórum de bicicletas antigas e começaste a contactar com pessoas que tinham o mesmo gosto que tu, podes contarum pouco dessa história?

MV: Posso claro! É uma história longa, mas como pode servir a alguns e algumas aqui vai ela: Tudo começou quando regressei a casa depois de ficar desempregada e regressei “à terra”. Aqui as pequenas deslocações fazem-se de bicicleta, e na altura só tinha a minha bicicleta de adolescente, uma btt horrorosa já herdada da minha irmã mais velha. Era tudo mau: grande demais, pesada, selim desconfortável, gasta (faltam-lhe vários dentes na pedaleira, comidos pelo o uso) e cheia de folgas. Ainda assim fartei-me de andar com ela antes de ter a carta de condução, porque não tinha outro remédio. Precisava de ir às explicações, na altura também montava a cavalo e tinha de ir ao picadeiro etc etc. E como é óbvio detestava-a e detestava tudo o que tinha a ver com bicicletas. Nem pensar em voltar a pegar nela! Por isso comecei a procurar alternativas. E eis que alguém me oferece uma pasteleira que tinha ficado esquecia num alpendre durante 20 anos. Decidi que ia por aquilo a andar de novo e inscrevi-me no tal fórum português e mais tarde no fórum francês. Conheci muita gente extremamente simpática, que me ajudaram imenso na minha empreitada. Alguns tornaram-se amigos próximos, e ainda nos encontramos ara pedalar ou para conversar. Depois com a pasteleira comecei a ganhar gosto pela bicicleta ( imagina a desgraça que aquela btt era) e comecei a querer ir mais longe e a querer saber mais. Arranjei outra bicicleta, grande demais, uma demi-course motoconfort, mas que me deixava antever o que seria ter uma bicicleta mais ligeira do meu tamanho, e por isso comecei a andar atrás do graal. Graal esse que um dia chegou a minha casa, vindo de França, oferecido por um randonneur da velha guarda, que nunca conheci pessoalmente mas que tinha lá uma bicicleta que de tão pequena não servia a mais ninguém, e teve a generosidade de me enviar. E depois disso nunca mais parei de pedalar, mas desta vez por gosto, além das saídas utilitárias. Moral da história: muitas vezes, alguém que diz não gostar de andar de bicicleta simplesmente nunca experimentou uma como deve ser!

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LC: Achas que as bicicletas podem ser um elo de ligação de pessoas que não se conhecem e fomentar amizades?

MV: Tenho a certeza que sim. Conheci muita gente simpática à conta das bicicletas, e fiz imensos amigos. Mas há um senão: há tantas formas de se andar e gostar de bicicletas que para haver o tal elo de ligação os gostos velocipédicos têm de ser iguais ou pelo menos semelhantes.

LC: Que sinónimos encontrarias para a palavra bicicleta?

MV: Seriam: liberdade, descoberta, simplicidade.

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LC: O que sentes quando andas de bicicleta e onde mais gostas de andar?

MV: Quando ando de bicicleta sinto-me bem, descontraída, e alegre, especialmente quando o sol brilha etenho o vento de costas! Claro que há momentos mais difíceis, quando só queremos chegar ao fim da subida, ou que o vento mude de direção, mas esses não contam...Gosto principalmente de andar onde não há carros e pouca gente, onde não há barulhos “humanos”. Gosto de passar por sítios com paisagens interessantes e tenho um fraco por estradas de montanha, mesmo sabendo que acabo sempre por sofrer nelas.

LC: O que vês numa bicicleta antiga?

MV: Gosto das bicicletas antigas porque são bonitas, elegantes, simples, robustas e envelhecem bem. Como permanecem por muito tempo, ao longo dos anos podemos olhar para elas, passar a mão pelo selim e pensar “ já fomos juntos a este e aquele lugar, já chegamos a sítios onde nunca pensei que pudesse chegar”

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Subir ás Estrelas na Estrela.

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Fim-de-semana grande com previsão de chuva e neve nas terras altas. Um óptimo fim-de-semana para ir com a “Cinzenta” à Serra  e á minha terra de adopção no sopé  da montanha. Cada vez me sinto mais em casa nesta região e á medida que sinto que Lisboa, a minha querida Lisboa onde nasci e vivo se vai transformando e de alguma forma afastando sinto que a Beira e o Interior se vão entranhando  cada vez mais em mim.  O sábado serviu para tratar de coisas  que se têm de tratar  quando se vai ao campo e para visitas de amigos.  Fomos nessa noite jantar a um dos melhores e mais agradáveis restaurantes da Região, “A lenda de Viriato” em Unhais da Serra. Restaurante que recomendo vivamente pela sua singularidade e bom gosto, ou pela excelente comida e acolhimento. Um Restaurante fora do normal onde dá imenso prazer ir. Dizia-me há tempos um amigo que ”não vai comer fora por necessidade ou ter fome, vai pelo prazer de ir a um local agradável, onde se come uma comida diferente e de onde saímos reconfortados e bem dispostos” é este o caso da “Lenda do Viriato” . Aqui se comem iguarias como o Javali selvagem ou o fabuloso tornedó, as trutas e os excelentes produtos da região. Com ótimos acompanhamentos dos quais destaco o fabuloso puré de maçã.  Todos os pratos são servidos com o requinte da época e parece que estamos sentados á mesa de um Rei a comer principescamente. Pelo meio ouvimos a história, ou uma versão da história de Viriato e dos seus feitos gloriosos contra o ocupante Romano enquanto saboreamos um dos excelentes vinhos da cada vez mais afamada região da “Beira”  ou nos deliciamos com uma divinal tarte de abobora ou umas deliciosas  "Papas de Carolo".

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A noite foi chuvosa e fria, invernal e o Domingo assim amanheceu. A Primavera  deve ter ido dar uma volta a qualquer lado, mas por ali não andava. Pelo menos até ao fim da tarde. Ainda assim arrisquei e por entre aguaceiros fortes e periodos de sol dei um dos passeios que mais gosto até perto das Minas da Panasqueira.  Quando o Sol dava um ar da sua graça as cores das flores saltavam e pairava no ar um perfume discreto mas bem perceptivel. As encostas floridas faziam-me parar e observar apenas por observar. A felicidade estava mesmo ali á mão.

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As rodas da Cinzenta rejubilavam quando aparecia o sol quente e o meu corpo e a minha mente, já tão farta de chuva, também. Chuva que tem sido uma bênção para as as ribeiras  e para  os rios que correm fartos de água distribuindo vida e abundância ás terras até há pouco ressequidas e secas.Agora é preciso que pare de chover para que os frutos amadureçam na sua doçura.

Montes Hermínios

Subir á Torre de bicicleta era um sonho antigo. Sempre achei muito difícil conseguir fazê-lo. Mas parece que com a idade tenho mais força de vontade. O esforço transformado em prazer,  a íngreme subida transformada numa singular, única e apaixonante paisagem e  o facto de o conseguir ser apenas uma grande e maravilhosa vitória.

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E não poderia ter escolhido melhor dia para o fazer. Temperatura amena no sopé da Serra, sem vento e esfriando um pouco á medida que subia-mos, eu e a Cinzenta.

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Subir esta Serra com uma bicicleta em Aço pesada como um Burro,” Eh-lá tanto também não” diz a Cinzenta entre o divertido e o ofendido, “ sei que não tenho daqueles tubos especiais e mais não sei o quê mas também não sou assim tão pesada”!! Subir á Serra, dizia eu, antes de ser interrompido, com uma bicicleta destas,sem carbonos e afins, parece ser uma tontice das grandes, ainda por cima para um “rapaz” dos seus 54 anos mas não para mim, ou por outra, também ás vezes a mim me parece mas o prazer é indescritível e hoje não me veria a fazê-lo de outra maneira tal é o fascínio que tenho por este tipo de bicicletas. Bicicleta que é uma companheira e uma amiga, sobretudo para quem com elas rola solitariamente.

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Parte em terra batida da estrada Unhais da Serra-Torre.

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Subir devagar, apreciar cada momento, saborear. Parar um pouco para admirar um pequeno regato que corre livremente. Apreciar as Vacas comendo a erva fresca e verde, tentar encetar uma pequena conversa com elas, sim elas ouvem-nos e olham para nós por vezes com aquele ar de compaixão de quem nos considera tão inteligentes mas também por vezes tão tristes. São sensíveis e sábias as nossas amigas Vacas.

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Nas duas noites anteriores tinha nevado acima dos 700/800  metros e a neve que já via há muito ao longe começa a aparecer. Nunca tinha andado de bicicleta com neve, a sensação  de felicidade é indiscritível.

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Comoção, maravilhamento, felicidade. Apenas o pequeno senão de não ter com quem partilhar no momento tais sentimentos, era apenas eu e a Cinzenta, que não nos queixamos e somos muito felizes juntos mas que naquele momento gostaríamos de ter tido mais alguém com quem partilhar tais emoções...

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E, á medida que subimos, vai aparecendo cada vez mais neve, há muitos anos que a Serra da Estrela não estava assim e eu e a cinzenta com tanta sorte em ter o privilégio de testemunhar este momento.

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Pedalada atrás de pedalada vamos subindo e lembro-me da conversa da noite anterior na Lenda do Viriato, de como estas montanhas anteriormente se chamavam Montes Hermínios, das lutas gloriosas  pela independência. Do que devem ter sofrido soldados e povo nestes montes. Vou-me lembrando também dos pastores e outras gentes que outrora  percorriam estas terras por obrigação e necessidade, tempos muito duros nada comparados com a facilidade com que se percorrem hoje em dia por simples prazer estes caminhos.

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Passando o centro de limpeza de neve começa a parte mais complicada, o frio ainda não incomoda muito embora a temperatura já ronde 1 grau positivo, o vento é pouco mas começamos a ter pendentes mais acentuadas e a altitude começa a dificultar um pouco a respiração. Nada que amedronte as rodas cansadas da Cinzenta  ou as pernas dum Ciclista já algo idoso mas o facto é que tivemos de parar algumas vezes,o  que aproveitavamos para apreciar a maravilhosa vista.

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E eis que chegamos á Torre cansados mas felizes. Na pequena subida que antecede a dita o muro de neve era alto como não se via há muitos anos. Pessoas incentivavam-nos dando palavras carinhosas e de espanto, outros batiam até palmas e tiravam fotografias. Uma senhora perguntou-me mesmo se queria um empurrão, ao que respondi com um enorme sorriso: "Agora que estou a chegar é que não"!!  Algumas pessoas estavam verdadeiramente espantadas e com alguma razão, é que afinal não é todos os dias que se  testemunha a chegada de dois idosos ao Alto da Torre.

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Chegados à torre sentimos pela primeira vez o frio,  a temperatura era de -2 Graus e estava algum nevoeiro.  Quando parei junto ao Centro Comercial de pouco interesse é que senti como estava frio. Toda a gente á minha volta vestida com roupa adequada e eu naquela figura. As minhas pernas tremiam e as rodas da Cinzenta também. Vesti á pressa  uma camisola mais grossa, dei a volta ao largo e comecei rapidamente a descer. E essa acabou por ser a parte mais dolorosa pois o frio e a intensidade da descida fizeram-nos sofrer um pouco mais que a subida.  Eu e a Cinzenta já não temos idade nem capacidade para tanta travagem, para tanto apelo á velocidade e para tanta curva e contra-curva.

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Foi excelente este passeio que recomendo vivamente. Como já referi tive a sorte e o privilégio de o  fazer  num dia perfeito em todos os apectos. Aconselho  a que o façam em companhia e não sozinhos como o fiz. Com companhia tudo é mais fácil e divertido.  Tenham sempre atenção ao tempo que faz na Serra e ao facto deste mudar muito rapidamente em certas ocasiões. É imprescindível levar um agasalho pois as diferenças de temperatura podem ser muito grandes e descer não é a mesma coisa que subir em termos térmicos. Não esquecer de levar comida e de beber, isso é imprescidivel. Bons passeios.

Velo Corvo

Pedro, o artesão de bicicletas.

Estarão os artesãos a acabar? Estarão os ofícios que dependem do trabalho manual a acabar? Estarão para terminar as pequenas marcenarias, as pequenas carpintarias ou as pequenas olarias?  Enquanto houverem pessoas como o Pedro não. O Pedro trocou a Engenharia pelo engenho do fazer, numa arte que dá vida a coisas inanimadas. Tal como um Mestre Carpinteiro tem a sua carpintaria e dá nova vida à madeira ou um Mestre Oleiro tem a sua olaria onde transforma o barro em peças únicas, onde cria e da´ vida a objectos maravilhosos o Pedro tem a sua pequena oficina e todos os dias suja as suas mãos com o óleo das bicicletas. Todos os dias as suas mãos mexem no aço nobre de uma bicicleta antiga ou nas correntes e nos pedais que a ajudam a andar.  Tal como um Mestre Relojoeiro, tal como um Mestre Ceramista ou pintor ,tal como um Mestre Marceneiro o Pedro todos os dias cria e transforma, todos os dias as suas mãos  se envolvem e enlaçam com a matéria prima do seu oficio. Todos os dias o Pedro cria vida onde outros apenas vêm ferro ou rodas. O Pedro é um Mestre nas sua arte e as bicicletas sabem disso. Sim sabem, porque uma bicicleta antiga não é apenas um conjunto de ferros com dois aros, uma bicicleta antiga tem personalidade, chega a ter alma. Na sua oficina o Pedro e as bicicletas fundem-se, o Pedro é uma bicicleta e uma bicicleta é o Pedro. Das antigas, das com memoria, das que respeitam o passado, das que vivem com a simplicidade das simples coisas boas e maravilhosas. Das que não se deixam influenciar apenas pelas modas ou pelo que não é autentico. A oficina do Pedro não é apenas uma oficina, a oficina do Pedro é um local de encontro, é um local de boas conversas e de amizades que se vão construindo. A oficina do Pedro, a Velo Corvo, é um oásis analógico num mundo cada vez mais tecnológico.  Aqui conversa-se e sonham-se aventuras, aqui bebe-se um café reconfortante e ouve-se uma palavra de estima e optimismo. Da loja do Pedro ninguém sai triste. A loja do Pedro chega a ser um local de terapia.

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Acabarão em breve os artesãos ?  Não enquanto existirem pessoas como o Pedro e outras que felizmente tenho a honra de conhecer, que dignificam a arte, que amam os materiais que trabalham manualmente, que fazem desta sociedade uma sociedade mais humana e que com a sua arte ajudam a transformar o mundo e a fazer muito mais feliz quem está á sua volta.

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Curta entrevista com o Pedro Gil

Como é que um engenheiro muda a sua vida,sai duma vida aparentemente confortável num emprego e abre uma oficina de bicicletas?

Simplesmente, mudando. Vencendo a inércia, o não fazer nada, o acomodar-se, o ter medo de que as coisas não corram bem, a incerteza. Não era feliz. Ganhava mais dinheiro, de certeza. Mas, para que é que serve o dinheiro sem felicidade? A altura da minha vida em que ganhei mais dinheiro foi também a minha altura menos feliz. Agora, sou mais livre, com menos dinheiro mas infinitamente mais feliz.

Que procuras oferecer aos teus clientes que muitas vezes passam a ser amigos?

Um ponto recorrente que surgia sempre que falávamos de lojas de bicicleta era que por vezes o antendimento era bom, mas frio. Por vezes, muitas das lojas, ainda estavam no regime frio do balcão. A bicicleta, para mim, não é como um electrodoméstico que se avaria e para o qual se compra uma qualquer peça de substituição (mas alguém ainda arranja pequenos electrodomésticos?). A bicicleta, geralmente tem alma. Logo, a loja de bicicletas tem de ter alma e significado. E, aqueles que entendem o que estou a fazer com a Velo Corvo, tornam-se meus amigos rapidamente porque sabem que farei tudo para que saiam da loja satisfeitos. E é isso que quero fazer, sempre. Procurar dar o melhor atendimento. Seja para uma camara de ar como para uma bicicleta montada às peças.

O que te atrai numa bicicleta antiga?

Penso que sobretudo terá a ver com questões estéticas. Muito simplesmente, para as bicicletas de ciclismo, estrada, todo o caminho, randonneuses, etc, dos anos 70 para a frente tudo fica mais feio ( e pior). Para as bicicletas de todo o terreno, de 95 para a frente. Curiosamente, com o meu primeiro ordenado num emprego part-time como mecânico de bicicletas, comprei uns travões V-brake, Shimano XT. Acho que a partir daí (anos 90), as coisas perderam o seu encanto- o excesso de tecnologia, ou melhor: o aumentar da “rede” necessária para tornar possível a construção de uma bicicleta. A super-industrialização e máquina fria do vender e vender depressa, para no ano seguinte vender uma qualquer “melhoria”. 

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Achas possível uma bicicleta ter alguma espécie de "alma"?

Pois claro que sim. Contudo, não podemos pegar numa bicicleta, tirá-la da caixa, e esperar que ela tenha alma. Muitas pessoas dão nomes à bicicleta. Logo aí, atribuimos uma personificação, uma sensação de que há algo mais do que metal. Mas só isto não basta. Temos de fazer qualquer tipo de alteração. Nem que seja colocar uma campainha. E, quanto mais única for a bicicleta, mais alma terá. Quanto mais uso têm certas peças, mais alma terá. O selim que já esteve em várias bicicletas, as manetes de travão que já tenho desde 95, a mala de guiador que uso todos os dias, etc etc. Todas as minhas bicicletas “boas” foram montadas com peças usadas /novas. E é precisamente este grau de intervenção humana, não standardizada, que dá a “unicidade” e alma à bicicleta. E claro, quanto mais uso tiver a bicicleta, mais alma terá.

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A tua loja é muito mais que uma pequena oficina de bicicletas não é ?

Claro que sim! A ideia não é só arranjar bicicletas. A ideia é mesmo juntar o maior número de pessoas que pensem de maneira mais ou menos semelhante e irmos todos pedalar. 

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Qual a sensação quando um cliente vem buscar uma bicicleta e sentes que gostou muito do trabalho que fizeste?

A sensação é óbviamente boa. Conseguir, com o meu trabalho manual, fruto de décadas de aprendizagem, melhorar algo que , para muita gente tem um lugar fulcral na vida delas (a bicicleta), é para mim muito recompensador. 

Os passeios velo corvo.

Já são míticos os passeios VC . Como vês esses passeios e qual o seu objectivo?

Na pergunta está parte da resposta. Míticos, não por ser a Velo Corvo, mas sim, pelo facto de a Velo Corvo ajudar a desvendar a possibilidade que cada um de nós temos de ir um bocado mais longe. Quantos de nós não passamos horas a vermos fotos no instagram e a pensar “quem me dera conseguir fazer”? A verdade é que conseguimos, pelo menos, fazer um bocadinho mais do que já fazemos! Algo mais do que ficar em casa a ver fotos no instagram. Nem que seja uma tarde num qualquer parque, ou uma manhã a subir uma montanha. Nem que seja uma voltinha ao quarteirão durante a semana. 

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Andar devagar, apreciar a paisagem, conviver com amigos...o que é para ti andar de bicicleta?

Ora, é isso mesmo. Andar a uma velocidade mais ou menos confortável, sentir a paisagem e conviver com amigos. Isso tudo mas também o pedalar como uma espécie de meditação.

O Picnic é um dos pontos altos destes passeios...

Isso e o café! Para quê ir pedalar, para chegar lá acima e comer alpista? Não faz muito sentido alimentar-me de barras energéticas, não achas? Acho pouco recompensador. Para além disso, é bom para meter a conversa em dia e se tiver sol....

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Onde gostas de passear ? Sei que Sintra é uma das tuas paixões …

Gosto de passear em Sintra, porque reúne um conjunto de qualidades: paisagem dramática, subida excelente, perto de casa, árvores, bom sítio para acampar e fazer picnics, e uma descida linda. Mais genéricamente, gosto de passear em sítios bonitos, SEM carros. Algo que me transporte para fora da minha vivência diária, sobretudo.

O que é para ti o verdadeiro ciclo-turismo?

Bem, o nome cicloturismo, em Portugal, é usado para tudo e mais alguma coisa: passeios com carros vassoura a tocar música pimba, com multidões envoltas em licra, com bicicletas desadequadas. O cicloturismo tem de ter duas coisas: ciclo e turismo. Parece que a parte do turismo, por cá, é substituida por um porco no espeto. Nada contra comer, mas pelo menos uma visita a um monumento qualquer, não? E a parte estética também é importante. A ideia do cicloturismo será sair cedo e chegar tarde, levar a mala de guiador cheia de tralha, ir a algum sítio com alguma história e significado, tentar aprender alguma coisa, tirar umas fotos e voltar para casa satisfeito. E tudo isto de bicicleta. Pronto. Simples. Ah, e de preferência sem usar carro nem roupa de licra. 

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Como vês o desenvolvimento do uso da bicicleta como meio de transporte em Lisboa e que mudanças gostarias de ver na cidade?

Vejo com bons e felizes olhos. Os erros feitos nos anos 80 e 90 têm de ser corrigidos. Tanto a nível urbanistico, de infraestruturas, como a nível de mentalidades (se bem que estes se calhar ainda vêm de mais atrás). Por mais que se tente dar a volta à situação, uma boa percentagem de pessoas que vivem nos grandes centros urbanos têm de mudar a sua mentalidade. Não pode haver situações individuais para cada pessoa. Não podemos dispender de espaço vital, em locais já densamente populados, para que os automobilistas possam estacionar, quase gratuitamente. A cidade é de todos e não só de alguns. E, se olharmos de um ponto de vista ainda mais exterior, o carro está ligado a tantos outros fenómenos nocivos à vida humana. Logo, tudo o que limite o seu uso, é para mim, positivo. Radical? Sim, porque vou à radix, raiz do problema. A raiz do problema é mesmo esta: a cidade tem espaço limitado, o planeta tem recursos limitados. Logo, é fisicamente impossível continuar a viver como vivemos. 

Relativamente a mudanças. Para já, multas constantes aos infractores. O excesso de velocidade é constante, mesmo em ruas estreitas, perto de escolas, etc. Há avenidas que são utilizadas como autoestradas. A Avenida de Roma não é a autoestrada de Roma! 

E atenção: esta desculpabilização não é exclusiva a Lisboa. Em qualquer aldeia, há um carro a circular em excesso de velocidade. Fiscalização? Pouca. E quando a há, é a crítica do costume. “É caça à multa”. Bem, se não houver infracção, não há multa, certo?

Logo aí, poderia ajudar a reduzir a sensação de insegurança que sentimos, como utilizadores da bicicleta, ao circular nas ruas. Outras alterações: construção de mais ciclovias, mas das que funcionem. Alteração de algumas regras do código da estrada, que permitam por exemplo, a circulação em contramão em algumas ruas, (por ciclistas) e que permitam a passagem com vermelho em determinadas circunstâncias.

Algumas palavras finais? 

Procurar a felicidade em pedalar simplesmente por pedalar. 

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Sei que o Pedro gosta de escrever e por isso mesmo pedil-he que escrevesse um pequeno texto sobre a sua loja. Escreveu este texto numa sua antiga máquina de escrever e obviamente que não resisti a publicar o texto na sua versão original.

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Coisas antigas. Alleycat em Lisboa.

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Eroica Hispania. Vamos?

  Este ano voltarei á Eroica Hispania. A Eroica Hispania é uma enorme festa de ciclismo, de quem ama as bicicletas. Mas também de quem ama a camaradagem fraterna, vencer um desafio ou pura e simplesmente passar um fim de semana extraordinário numa belíssima região de Espanha. Na Eroica Hispania todos são bem vindos, não existe qualquer classificação e ninguém é deixado para trás. Na eroica Hispana a cultura ciclista é elevada ao expoente máximo e a festa é lindíssima. Mercado d  e rua, eventos culturais etc, tudo ligado á bicicleta antiga. Esta Eroica é a que está mais próxima de Portugal e quem gosta verdadeiramente de bicicletas não deve perder. Sobretudo quem tem paixão por bicicletas antigas. Eu irei com o meu amigo Salvador e quem quiser informações,dicas ou apoio disponha que nós ajudamos no que pudermos. Venham também a esta maravilhosa festa do ciclismo de época, garanto que não se vão arrepender.  https://www.eroicahispania.es  Podem também ver reportagem da ultima edição aqui:  https://www.lisboncycling.com/…/20…/7/5/eroica-hispania-2017

Este ano voltarei á Eroica Hispania. A Eroica Hispania é uma enorme festa de ciclismo, de quem ama as bicicletas. Mas também de quem ama a camaradagem fraterna, vencer um desafio ou pura e simplesmente passar um fim de semana extraordinário numa belíssima região de Espanha. Na Eroica Hispania todos são bem vindos, não existe qualquer classificação e ninguém é deixado para trás. Na eroica Hispana a cultura ciclista é elevada ao expoente máximo e a festa é lindíssima. Mercado de rua, eventos culturais etc, tudo ligado á bicicleta antiga. Esta Eroica é a que está mais próxima de Portugal e quem gosta verdadeiramente de bicicletas não deve perder. Sobretudo quem tem paixão por bicicletas antigas. Eu irei com o meu amigo Salvador e quem quiser informações,dicas ou apoio disponha que nós ajudamos no que pudermos. Venham também a esta maravilhosa festa do ciclismo de época, garanto que não se vão arrepender.
https://www.eroicahispania.es
Podem também ver reportagem da ultima edição aqui:
https://www.lisboncycling.com/…/20…/7/5/eroica-hispania-2017

O Salvador e o seu sonho.

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O Salvador tinha um sonho desde criança, ter uma pequena oficina de bicicletas. Procurou, batalhou e a realização do sonho aconteceu. O Salvador sempre teve jeito e gosto por consertar coisas, sempre teve gosto pelas bicicletas, as antigas então são uma verdadeira  paixão. Para juntar ao que já sabia fez uma formação e depois disso foi fazer um “estágio” com um verdadeiro Mestre, o Pedro da Velocorvo, que lhe ensinou com prazer muitas coisas que só os verdadeiros Mestres sabem e têm a generosidade imensa de partilhar.  Com muita coragem mudou tudo na sua vida e com muita ousadia montou a sua própria oficina. Um acto de amor e paixão por estes objectos de duas rodas que tantos apaixonam. Quando  uma bicicleta entra pela porta da oficina do Salvador o seu coração sorri de felicidade e os  seus olhos brilham de emoção, a Bicicleta, essa, sente o amor com que é recebida e sabe que vais ser acarinhada e mimada. Que o Salvador irá limpar com carinho os seus cromados, que tratará das suas ferrugens  com ternura e que cada esfera será polida até brilhar como uma estrela.  Para o Salvador uma bicicleta é tudo menos um pedaço de ferro, é um objecto amado, uma amiga de quem ele cuida com prazer.  O Salvador fascina-se na sua oficina, perde a noção do tempo e viaja dentro da loja com as suas bicicletas pelo mundo inteiro. O salvador é feliz, e merece.

Oficina da Bicicleta. Rua Olivério Serpa n19 Q - Benfica, 1500-471 Lisboa (junto ao mercado)

Foz Côa.

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Confesso que os passeios de Cicloturismo nunca me atraíram e que nunca tinha participado em nenhum. Mas quando ouvi falar do de Foz Côa o meu instinto foi dizer logo que ia, sem saber bem ao quê mas que ia. Que me queria inscrever e participar pois achava que ia gostar. Sobretudo pela região, que não conhecia. E o meu instinto não podia estar mais certo. Quando saí de Lisboa, no sábado, chovia a bom chover e assim foi durante toda a viagem, chuva e mais chuva até perto da Covilhã, onde dormi. E durante a noite a chuva continuou. “Amanhã vai ser complicado”, pensei eu pois a previsão era ainda de mais chuva. Mas a natureza tem destas coisas e a manhã acordou solarenga e com céu azul, parecia impossível mas era verdade. E assim foi durante toda a manhã, depois de dias e dias de chuva seguidos uma trégua e o sol apareceu. Da Covilhã a Foz Côa o sol acompanhou-me sempre e quando lá chegamos , eu e a minha companheira que tanta chuva tinha apanhado no dia anterior em cima do carro, rejubilamos de contentes. Um dia lindo e frio, uma Vila muito bonita e logo á chegada um encontro com um outro ciclista que também ia para o passeio. Foi a segui-lo que cheguei ao local de partida. Quando me falaram do passeio de Foz Côa referiram logo que era um passeio onde se comia esplendorosamente e para confirmar isso mesmo  estavam também a chegar várias bolas de carne que serviram de pequeno almoço a quem já se tinha levantado à mais de 2 horas. E que bem que souberam aquelas fatias.  Começaram a chegar cada vez mais ciclistas e por volta das 9,00 horas eram cerca de 120 preparados para partir.  Muitos estavam um pouco espantados com a aparência da minha amiga, “vai nesta bicicleta”? Perguntam alguns um pouco incrédulos , vou respondia eu mas a algumas pessoas custava a acreditar que isso ia acontecer. “olhe que é muito dur”...Existia um carro vassoura e essa era a razão para a minha  falsa confiança em conseguir percorrer todo o percurso. Se não conseguisse o carro transportava-me ao meu destino. O Passeio começou na Vila de Foz Côa e deu uma volta pela região, lindíssima, com as Amendoeiras em flor, com muitas oliveiras e vinhas durante todo o percurso. Amêndoas, Azeite e Vinho, uma riqueza de valor incalculável que todos se orgulham de ter e preservar. Mas há muito mais em Foz Côa, que para além de belas paisagens tem um património de grande importância mundial. Mas o melhor de tudo são as pessoas e a maneira como nos receberam, uma simpatia e uma hospitalidade fantásticas. O passeio , tal como me avisaram era duro , duro sim mas altamente recompensador. As vistas magníficas e a boa companhia compensavam a dureza das longas subidas e as descidas, bom as descidas também eram muitas e bem divertidas de fazer. Para aplacar a dureza nada como os afamados abastecimentos com que fomos presenteados durante o percurso. Sumos, fruta, presunto ,queijo, as famosas bolas, bolinhos e muitas outras iguarias não faltaram. “Parece um casamento” ouvi alguém dizer e na realidade a mesa era digna dessa honra. Numa terra de vinho de qualidade este não podia faltar e até um maravilhoso “Porto Caseiro” havia. Delicioso. Foram dois os abastecimentos e um excelente almoço convívio no final. Que mais pode pedir um ciclista cansado? Eram já perto das 14,00 horas quando regressamos a Foz Côa, cansados mas felizes e bem dispostos. O percurso tinha sido fantástico com uma organização rigorosamente impecável a todos os níveis. Não me canso de elogiar toda a simpatia, a maravilhosa hospitalidade com que todos fomos recebidos. Muito obrigado ACCÔA , muito obrigado a todos. Para o ano voltarei. Foz Côa, que não conhecia, ficou no meu coração. Quando saía de Foz Cõa a chuva, que tanta falta faz, regresssou. Parecia que a natureza sabia que o passeio tinha acabado. Se calhar sabia mesmo...

Primeira das duas ultimas foto foi tirada pelo meu amigo José Morais, grande reporter  e divulgador do cicloturismo em Portugal foto, a  última com o amigo "Estica", tirada pelo meu amigo e amigo dos cicloturistas Antonio Baganha.

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Lojas que gosto. Cenas a Pedal-Lisboa

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A cenas a pedal já fez 11 anos em Setembro.  Lisbon Cycling falou com a Ana para descobrir o que levou um casal tão jovem a investir neste negocio numa cidade onde muito pouca gente andava de bicicleta.

LC- Ana , como é que  há dez anos se corria o risco de investir num negocio de bicicletas em Lisboa? Sobretudo na vertente em que vocês investiram, mais virada para o ciclismo urbano, de viagem e até de carga.

Ana: Bem, há 10 anos tínhamos 25 anos  e éramos muito ingénuos (risos). A sério, quando criamos a “Cenas a Pedal” não a criámos com a prespectiva do empreendedor que vê uma oportunidade de negocio para servir o mercado e também tirar partido dessa oportunidade.  Essa oportunidade realmente não existia. O nosso objectivo era  poder contribuir para uma mudança cultural , digamos assim.

LC: Como ?

ANA:  Pensámos que isto poderia passar  pelo facto de não haver exemplos que incentivassem a uma mudança. Se não virmos ninguém a utilizar uma determinada ferramenta se calhar nunca pensamos que também a podemos utilizar, mas se vir-mos alguém a fazer determinada coisa se calhar já pensamos que também podemos conseguir fazer isso.  A ideia de fundar a empresa foi a de ajudar a que certos  tipos de soluções para a mobilidade em bicicleta sejam mais fáceis de ver e adquirir cá .  No fundo a missão a que nos propusemos era mais para uma associação só que nós éramos só dois  e não conhecíamos mais ninguém. Mas na empresa temos mais autonomia para decidir como fazer as coisas e isso é uma vantagem.  Independentemente da forma como criámos a empresa o que nos levou a criá-la foi o desejo de partilharmos com as pessoas uma paixão que nós tínhamos, éramos fãs de bicicletas, éramos fãs de usar a bicicleta em vários contextos e ajudar as pessoas que nós queríamos contagiar a aderir a este estilo de vida.

LC: Têm uma escola de Bicicleta, o que é que pretendem com esta escola?

Ana: A escola pretende ensinar pessoas a andar de bicicleta. Ela surgiu a partir do nosso desejo de aprender a conduzir duma forma mais eficaz, ou seja, reduzir as más experiencias, encontrar alternativas para uma condução mais segura e confortável. Tivemos formação, estudámos e percebemos que isso teve grande impacto na nossa  maneira de usar a bicicleta e melhorou muito a nossa experiencia. A partir desta constatação decidimos que seria muito útil partilharmos a nossa experiência com outras pessoas. Inicialmente ela estava focada em aprender a conduzir, e apesar nós já andarmos de bicicleta na estrada, aprendemos imenso. Depois muitas pessoas nos perguntaram se ensinávamos a andar a partir do zero, o que nos deixou muito surpresos, pois muitos eram adultos.  Tínhamos a ideia que toda a gente sabia andar de bicicleta ,mas não, não é assim e existe uma fracção  significativa da população adulta que não sabe andar ou anda mal e então desenvolvemos métodos para ajudar essas pessoas. Hoje em dia essa vertente tem bastante expressão no nosso trabalho.

LC: Achas importante educar as pessoas para a partilha da estrada?

Ana: Sim, é particularmente importante ensinar as pessoas a saber integrar-se  no meio rodoviário  e a saber lidar com as outras pessoas. Não encarar as estradas, os passeios ou as ciclovias como um terreno de batalha em que os outros estão lá para lhes fazer mal, temos que perceber que as coisas só funcionam se as pessoas cooperarem e que muitas vezes quando as coisas correm mal de parte a parte não é, na maioria das vezes, uma coisa deliberada , muitas vezes são falhas de comunicação, falhas  humanas etc. Por isso trabalhamos muito nas aulas de condução como aprender a identificar essas falhas humanas e as próprias falhas do sistema que potenciam  as falhas humanas e que muitas vezes não são visíveis a olho nu. Por exemplo muita gente vai para uma ciclovia e pensa que” aqui posso andar, é seguro “ mas há uma série de coisas que podem acontecer e se não formos educados para isso não damos por elas até ao dia em que as coisas correm mal. Se formos educados para prevenir  armadilhas, para percebermos como as coisas funcionam, para identificar problemas é muito mais fácil antecipar situações perigosas e as coisas correm muito melhor. Vale mesmo a pena investir um pouco na nossa educação nem que seja pesquisando na internet pois existe muita informação disponível sobre estes temas.

LC: Achas que tem havido uma evolução no uso da Bicicleta em Lisboa ou as coisas estão mais ou menos estagnadas?

Ana: Realmente nós agora cruzamo-nos com muitas pessoas e é óbvio que há muito mais gente a andar de bicicleta. Por vezes é um pouco difícil distinguir o que é transporte  ou o que é  lazer ou  até desporto mas sim vêm-se muito mais pessoas a andar de bicicleta. Têm que haver mais investimentos nas politicas publicas para que este desenvolvimento seja mais acentuado. Parece-me que em 2012/13 houve um grande aumento mas entretanto dá a impressão que as coisas estagnaram um pouco. Se não dermos condições para que andar de bicicleta seja agradável as pessoas tendem a parar, desistem porque a espectativa que tinham não se confirmou.

LC: Qual é para ti a principal dificuldade em andar de bicicleta em Lisboa?

Ana: Lisboa é uma cidade ainda muito permeável ao automóvel e há muita dificuldade em escolher uma rota  confortável porque os carros estão por todo o lado. Escolher rotas, acho que essa é a grande dificuldade. Podes até escolher ir apenas por ciclovias mas muitas vezes chegas ao fim duma e não sabes bem o que fazer nem por onde ir. Devia haver um aconselhamento mais eficaz para rotas mais amigáveis. Estamos neste momento a fazer um inquérito aos nossos ex-alunos que são cerca de 800 e eles referem muito que uma das coisas que os impede de utilizar mais a bicicleta é não conhecer sítios agradáveis e seguros, não terem sinalética em que possam confiar.

LC: É muito mais isso que o mito das colinas não é?

Ana: Acho que sim, porque as colinas têm alternativas, podem-se contornar ou  existe até neste momento a alternativa da bicicleta elétrica que  ajuda muito. Ou as dobráveis que podem ser utilizadas em conjunto com os transportes públicos. Se a pessoa tiver vontade as colinas não são realmente um problema.

LC: pensas que a bicicleta eléctrica é uma solução para algumas das dificuldades de Lisboa ou de um utilizador que não quer ou não pode despender determinado esforço?

Ana: Sim, eu sou uma grande fã, andei nos últimos 4 anos com duas bicicletas citadinas diferentes eléctricas. Digamos que por exemplo  a bicicleta eléctrica reduz a “energia de activação” duma pessoa que quer começar a andar , torna as distancias e as subidas mais fáceis e até atenua alguns pormenores mais complicados do transito. Muitas vezes a bicicleta eléctrica  serve de transição para uma bicicleta normal pois a pessoa começa a ganhar confiança e a sentir que é capaz. Uma Bicicleta eléctrica pode ajudar a passar de uma forma muito mais tranquila de um estilo de vida sedentário para um estilo de vida mais activo. Aconselho a bicicleta eléctrica a toda a gente que tem medo das subidas, das colinas, do não ser capaz, uma eléctrica minimamente decente resolve muito  destes problemas. Há que acabar com este preconceito em relação à bicicleta eléctrica.

LC: O que achas que falta em Lisboa para que haja mais utilização de bicicletas na cidade?

Ana: É uma questão de politicas publicas, as pessoas vão para a bicicleta naturalmente quando isso fizer sentido, neste momento as pessoas usam muito carro, são muito dependentes dele mas se começares a tornar essa dependência mais difícil  e os transportes públicos, por exemplo, começarem a funcionar melhor as pessoas começam a procurar alternativas.  Se tivermos menos carros na cidade vai ser muito mais seguro andar a pé ou de bicicleta. São precisas medidas públicas que devolvam o espaço ás pessoas  e que acabem com estes apoios ao uso do automóvel. Não se deve obviamente obrigar ninguém a andar de bicicleta mas deve-se reduzir um bom bocado o uso do automóvel, depois as pessoas que escolham a alternativa que querem que será de certeza melhor para a pessoa e para a sociedade. Não tenho nada contra o automóvel que é muito útil e faz falta a muitas pessoas em muita situações, simplesmente é uma questão de dosearmos as coisas  e fazer ver a quem usa que isso tem um grande impacto em toda a sociedade.

LC: Qual é o público alvo da vossa loja?

Ana: São os “commuters”, são as famílias, a partir da segunda criança  as coisas complicam-se e é mais difícil encontrar nas lojas normais soluções  adequadas ao que precisam. São viajantes em bicicleta, pessoas com algum tipo de “necessidade especial” a quem  tentamos arranjar soluções e fãs de coisas mais divertidas como por exemplo as bicicletas reclinadas. Temos também bicicletas de carga e muitas outras coisas interessantes, úteis e divertidas para quem anda de bicicleta.

LC: sei que têm o projecto da “Casa da Bicicultura”. Que projecto é esse?

ANA.: Da experiência que temos ao longo destes 11 anos já deu para perceber quais são as dificuldades de quem quer começar a andar de bicicleta e não o faz, ou de quem quer andar mais e não consegue. Somos um país periférico dos centros do uso de bicicleta e então surgiu a ideia de formar uma espécie de clube de gente que gosta de bicicletas e que se foque na cultura da bicicleta. A ideia é criar um espaço físico onde exista uma “veloteca”, por nomeadamente, onde existam coisas que cá em Portugal sejam difíceis de ver ao vivo ou comprar, que se  possam experimentar como se levassem um livro para ler, ter acesso a utensílios que não necessitamos sempre mas que ali estão disponíveis para quando necessitamos.  Que seja um espaço de encontro onde as pessoas possam conversar sobre as suas experiências ou tirar duvidas. Onde possam ter aulas de mecânica e de condução. Onde se possa trabalhar na bicicleta num sítio bem equipado onde aprendes com alguém e  podes tirar dúvidas. Onde se possam  organizar passeios e encontros, etc.  É uma maneira de pormos em prática estes dez anos de experiência, agora numa experiência colectiva.

 

Notas: esta entrevista já foi feita em 2016, ainda no espaço de Alvalade. Neste momento a base da loja e oficina é num armazém em Marvila. A Ana e o Bruno continuam a atender as pessoas por email (e telefone), e presencialmente por marcação - não são uma loja normal nem sequer nos horários. :-)

Dois passeios, dois Domingos, uma bicicleta, uma Cidade.

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Nos dois últimos domingos dei dois bons passeios por Lisboa.  Solitariamente e com muito prazer. Saí cedo para evitar trânsito e condutores que até ao Domingo vão com pressa e mal dispostos.  Sim, até ao Domingo as coisas podem ser complicadas com gente a pensar que só andamos ali para atrapalhar as suas vidas de bons e abnegados automobilistas.  No primeiro passeio pensei em fazer uma volta entre as colinas e Monsanto, passar pelos bairros históricos.  A primeira passagem foi pelo Bairro da Ajuda, pelo seu belíssimo Palácio , descendo depois a Calçada até ao Restelo onde parei  no Famoso “Careca” para um maravilhoso “petit Croissant” que de Francês nada tem.  Pois, mesmo bom não é? Dai segui para a Beira-Rio, até Alcântara onde passei o viaduto subindo depois a Rua Maria Pia em direcção ao Cemitério dos Prazeres. Bela subida com o Monsanto à esquerda e o casario à direita. De Campo de Ourique desci á Estrela e depois  á Lapa, da Lapa  a Santos entrando depois no Bairro da Madragoa. Subi a Calçada do Combro com mais facilidade do que pensava ser possível e  depois ao Bairro Alto chegando ao Príncipe Real. Daí foi sempre a descer até ao Camões e à Praça do Comércio de onde subi a Rua da Madalena seguindo pela Rua das Farinhas entrando na Mouraria. Da Mouraria ao Intendente foi um pulo, bem mais difícil do que pensei foi subir até à encosta do Castelo. Aí sim foi puxado, o piso em paralelo é tramado. Circulei depois pela Costa do Castelo até ao Bairro do Castelo e depois uma vertiginosa e bela descida até ao largo do Chafariz de dentro em Alfama. Curva e contra curva, ruas estreitas, muito cuidado com as pessoas e um prazer enorme. Daí subir até á Graça, passando pela feira da Ladra e daí ao mais bonito Miradouro de Lisboa, a Senhora do Monte onde parei para comer uma saborosa Bananinha que já trazia de casa.  Depois Almirante Reis, Saldanha e Monsanto onde a tranquilidade nos acolhe e a  natureza nos surpreende. Um grande passeio este que teve um pequeno senão e por isso mesmo  tive de encurtar o percurso: O piso é tão mau que a minha roda de trás empenou e teve de ir para o Mestre Corvo para arranjo na semana seguinte. Muito paralelo, muito buraco, muita subida e muita descida mas um passeio diferente que vale mesmo a pena.

O segundo foi bem mais tranquilo, se bem que mais longo.  Restelo, Algés onde se saúda o novo piso entrae esta localidade e a torre de Belém e o que parece vir a ser um novo troço de ciclovia que ligará a Torre a Oeiras. Uma boa nova pois esta parte é muito frequentada por ciclistas, muitas famílias inclusive e é bastante perigosa. Oxalá a ciclovia seja uma realidade em breve. De Algés à Expo sempre à beira-rio  e depois de volta á Praça do Comércio. Daí subi a Av. Da Liberdade, depois ao alto do Parque Eduardo VII onde entrei em Monsanto pelo corredor verde. É sempre uma maravilha, depois do burburinho da Cidade entrar em Monsanto.  Dois passeios simples que recomendo em Lisboa. O primeiro mais duro devido ás subidas e descidas e sobretudo ao estado do piso, o segundo menos cansativo e mais contemplativo. Experimentem. Sem pressas e apenas pelo simples prazer de passear na vossa bicicleta. Ela também vai gostar.

 7 colinas e Monsanto.

7 colinas e Monsanto.

 Zona Ribeirinha e Monsanto.

Zona Ribeirinha e Monsanto.